A rebelião e o radicalismo de Clóvis Moura

Pensador brasileiro completaria 100 anos em 2025

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Sociólogo Clovis Moura
1 de 1 Sociólogo Clovis Moura - Foto: Reprodução

Se o mito da democracia racial foi abandonado, em parte, pelo senso comum, Clóvis Moura (1925-2003) é um dos responsáveis. No ano do centenário de nascimento do sociólogo e historiador, o pesquisador Márcio Farias promoveu dois dias de palestras e debates no Sesc São Paulo para relembrar a relevância e fincar a bandeira da atualidade de suas ideias. Autor do livro Clóvis Moura e o Brasil (Editora Dandara, 2019), Farias destaca que o legado do intelectual supera a denúncia da violência do racismo: “Ele pensou o negro como sujeito político da formação social do país, dos quilombos até a luta contemporânea”, afirma.

Moura produziu uma ciência social enraizada nas lutas populares e foi crítico à sociologia eurocêntrica que predominava na academia brasileira. Entre suas obras mais conhecidas estão “Rebeliões da Senzala” (1959) e “Dialética Radical do Brasil Negro” (1994). A primeira ganhou repercussão internacional, enquanto a segunda representa sua obra de maturidade: “Ali ele afirma que o Brasil é dialeticamente negro, formado pela violência da colonização escravista e pela resistência negra”, explica Farias. Confira a entrevista.

Blog: Além de destacar a violência do racismo, quais foram as outras contribuições de Clóvis Moura para o pensamento social e acadêmico brasileiro?

Marcio Farias: Ele pensou o negro como sujeito político na história de longa duração do país, dos quilombos até a luta contemporânea. Produziu uma ciência social baseada nas lutas sociais, com uma teoria política original sobre o escravismo. Também criticou o eurocentrismo da sociologia brasileira.

Blog: Entre Dialética Radical do Escravismo e Rebeliões da Senzala, qual teve mais impacto?

Rebeliões da Senzala teve mais repercussão, especialmente após ser citado pelo historiador Eugene Genovese. Mas considero Dialética Radical do Escravismo a obra de maturidade, onde Moura afirma que o Brasil é dialeticamente negro, formado pela colonização escravista e pela resistência negra.

Blog: Como ele articulava classe e raça?

Não via o negro de forma essencialista, mas em relação à estrutura e posição de classe. Para ele, a luta negra deveria estar enraizada nas massas marginalizadas e precarizadas, e a classe média negra deveria se radicalizar e apoiar essas lutas.

Blog: Ele teve relação com a Frente Negra Brasileira (FNB) e o Movimento Negro Unificado (MNU)?

Sim. Com a FNB, estudou criticamente sua integração e limites de classe. Já com o MNU, teve um diálogo orgânico, sendo uma referência intelectual presente inclusive na histórica manifestação de 1978 no Teatro Municipal de São Paulo.

Blog: Por que ele não é tão citado e estudado no meio acadêmico?

Houve exclusão e resistência às suas ideias radicais. Ele amargou certo isolamento político e intelectual, apesar da relevância de sua obra.

Blog: Como ele veria hoje a difusão do conceito de racismo estrutural?

Dialogaria criticamente. Para ele, era fundamental pensar a estrutura, mas também a ação política. Provavelmente se aproximaria das formulações de autores como Dennis de Oliveira, que ampliam o conceito para além da descrição estrutural.

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