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Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

Que saudade do medo da Regina

Parte da esquerda é conservadora e a extrema-direita é uma ameaça

15/10/2026 13:05, atualizado 15/10/2026 13:08
Reprodução/TV Globo
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Medo e eleição, Regina Duarte no coração. A recordação, um tanto exausta, é inevitável. Fios brancos já devem habitar as cabeças de quem lembra das declarações da atriz. Foi em 2002, na reta final da campanha presidencial, em apoio a José Serra (PSDB). E assim disse Regina: “Estou com medo. Fazia tempo que eu não tinha esse sentimento. Porque eu sinto que o Brasil nessa eleição corre o risco de perder toda a estabilidade que já foi conquistada (…) Sobre Lula: “Eu achava que conhecia, mas hoje eu não conheço mais. Tudo que ele dizia mudou muito e isso dá medo na gente”. Lula era a Cuca para a Viúva Porcina,

Bons tempos. A gente discutia com os tucanos e poucas amizades ou famílias rachavam; criticava o neoliberalismo e a precarização do trabalho como a vivemos era impossível; ia ou queria ir para Porto Alegre ao Fórum Social Mundial porque acreditava que “Um Outro Mundo é Possível”.

Estou sendo nostálgico, não gosto de nostálgicos e não há tempo para isso.

A esperança venceu o medo em 2002 e Lula foi eleito no segundo turno com 61% dos votos válidos. Regina Duarte repetiu a dose em 2022, foi ministra da Cultura de Bolsonaro por 77 dias e segue aterrorizada pela patrulha de parte da esquerda.

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Bom, mesmo com muitas críticas, olhando pelo retrovisor, você sabe: o Brasil mudou com Lula. O sarrafo subiu. Depois, em nossa cronologia política acidentada, tivemos Dilma, impeachment, Temer, Jair Bolsonaro, Lula 3 e vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026.

E quem voltou foi o medo. Um temor alimentado pela esquerda contra a direita. Todo pavor é conservador, e é isso que parte da esquerda se tornou ao defender as instituições e o mercado, sem vislumbrar um futuro senão vencer as próximas eleições. Em 2002, o PT era a loira do banheiro porque prometia transformar o país, balançar os alicerces da desigualdade. O medo era manipulado pela incerteza, pela Faria Lima da época ou por teorias que estavam longe da realidade.

O medo que hoje a esquerda veste a candidatura de Flávio Bolsonaro é outro. É real. A primeira referência é o governo do pai, o Jair. Mortes na pandemia, tentativa de golpe, orçamento secreto, pra resumir bastante. A segunda referência é a biografia do filho: milícia, rachadinha, Master, loja de chocolate, lavagem de dinheiro…

A cereja cinza do bolo veio no 1° turno. O PL elegeu 19 senadores e 121 deputados federais. A partir de 2027, terá 28 integrantes no Senado, a maior bancada. Projeções indicam que os partidos de direita podem se aproximar da maioria absoluta nas duas Casas. Com ou sem impeachment de ministros do STF, Flávio poderá no mínimo escolher quatro novos integrantes da Corte. Ainda que o presidente não possa tudo, a ameaça à democracia é latente.

Na campanha atual o PT diz que a eleição do senador pode ameaçar direitos sociais. O tesouraço é um risco para programas como o Farmácia Popular e pode desvincular o reajuste das aposentadorias do salário mínimo. Aliás, aumento real do mínimo? Durante o governo de Jair Bolsonaro não houve. Todos esses medos são baseados em fatos.

Mas veja só, fico falando de fatos. Só o medo vence os fatos, diz o ditado que acabei de inventar. O temor que une a direita está atado a outro tipo de conservadorismo, dos costumes. Minha amiga Débora mandou o episódio “Como falar com o lado de lá” do podcast Escafandro, apresentado por Tomás Chiaverini. Em entrevista, o professor e pesquisador em semiótica e comunicação, Paolo Demuru, disse que o medo é uma reação natural à precariedade do mundo moderno, que a extrema-direita potencializa com o que ele chama de fantasias ou populismo conspiratório. Quem vive essas fantasias abraça um forte sentimento de pertencimento a um grupo.

Quando uma pessoa está imersa nessas narrativas de medo e pertencimento, esfregar fatos na cara dela não funciona, ao contrário, ela se fecha ainda mais em sua própria identidade coletiva, no caso bolsonarista. Afinal, a vida precisa de narrativas para parar em pé. Todos nós precisamos de histórias para sobreviver. O problema é quando essas fantasias que dão sentido pra vida são o clone do Lula ou chip líquido nas vacinas

A esquerda precisa aprender a criar narrativas igualmente potentes para quebrar esse feitiço, diz Demuru. Seriam as utopias astronautas?

Isso ainda é distante. Ainda falamos com uma bolha. Há meia dúzia de indecisos e os milhões que se abstiveram. São eles os alvos da campanha contra a direita.

Acompanhei o ato de Lula na Paulista no último sábado. Ali não havia medo, havia um sentimento de indignação e luta, as pessoas transpiravam vontades. E depois de muito tempo ausentes, muitos jovens presentes. Que as pessoas sigam mobilizadas, cobrando um governo democrático. Que sigam os sonhos de uma sociedade mais justa. Nunca mais o medo seja cabo eleitoral da esquerda. E um beijo para a Regina Duarte.