O efeito borboleta da renúncia de Castro

Como a fuga em autodefesa de Castro paralisou o STF e colocou o carioca no banco de reserva

atualizado

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Agência Brasil
Cláudio Castro
1 de 1 Cláudio Castro - Foto: Agência Brasil

O Rio de Janeiro acaba de oficializar sua vocação para a Gotham City de Jards Macalé. A referência, resgatada esta semana nos tapetes do STF pela voz do advogado Thiago Boverio, resume o drama: em uma metrópole onde há um abismo em cada esquina, uma eleição indireta conduzida pela Alerj corre o risco de eleger o Coringa em vez do Batman – guardadas as devidas proporções diante da realidade de que na política, não há heróis.

A renúncia de Cláudio Castro às vésperas de ser cassado pelo TSE é o “déjà vu” rasteiro da nossa história, uma reedição mambembe do episódio de Fernando Collor em 1992. Castro achou que, saindo pela porta dos fundos, salvaria o palanque para o Senado.

É a velha tática de fugir da escola para não levar bomba. Mas a política fluminense não usa fraldas, e o vice-governador também não pode assumir – está ocupado com explicações sobre elos com o crime organizado.

O estado virou um slime deformado onde nem um temporário, o desembargador, quer tocar. Esse está doido para sair do parquinho – o que demonstra uma certa sanidade, ironicamente.

O imbróglio chegou ao Supremo, que é forçado a decidir se o destino pertence ao povo ou ao balcão de negócios da Assembleia Legislativa. O placar já marca 4 a 1 a favor da eleição indireta, com o relator Luiz Fux defendendo inclusive o voto secreto para os deputados – o que, na prática, é colocar um capuz na Alerj para proteger quem nela habita.

O julgamento agora dorme no colo de Flávio Dino, que pediu vista para “estudar a encruzilhada” causada por um “fato novo”. Ele brecou a marcha e deu um tempo para o Rio respirar. Mas o tom foi dado por Alexandre de Moraes: admitir essa renúncia estratégica seria premiar a malandragem de Gotham.

“Qual a razão pela qual o governador do estado do Rio de Janeiro renunciou? Qual a razão da vacância dos dois cargos? Qual a razão? A razão é morte? A razão é que assumiu um outro cargo? E aí, eleição indireta? Não. A razão é tentar evitar o término da cassação para que não houvesse eleições diretas. Essa é a razão”, avalia Moraes.

No frigir dos ovos, o Rio enfrenta a escolha de Sofia: ou a urna ou o balcão. A eleição direta é a virtude, mas, convenhamos, é um estorvo logístico que cansa a alma do eleitor, ninguém quer o fardo de votar duas vezes em um curto espaço de tempo apenas por um mandato tampão.

Já a eleição indireta é o adultério institucional: entrega-se a sucessão aos deputados para que decidam o futuro do estado entre quatro paredes. O desdobramento é de uma obviedade ululante: quem herda a máquina, fará com que siga “funcionando” na mesma toada. É a manobra para que nada mude.

Desejo sorte ao Rio. Vai precisar dela para que um dia o cidadão saiba com quem, sem sombra de dúvida, está falando.

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