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NAZA diz que os escudos humanos do Hamas são uma mentira

Em documentário israelense, soldados dizem que milhares de civis mortos são “danos colaterais” previstos e relatam uso de IA no conflito

08/10/2026 12:51, atualizado 08/10/2026 13:21
Hani Alshaer/Anadolu via Getty Images
Visão da destruição como resultado do ataque do exército israelense à cidade de Khan Younis, no sul de Gaza - Metrópoles

Ontem, 7 de outubro, foi dia de recordar o cruel ataque do Hamas a Israel, que ceifou 1.200 vidas e sequestrou 251 pessoas. Meu respeito a todos os familiares e à comunidade judaica  Um dia antes, 6 de outubro, fui assistir à NAZA, documentário dos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, em que 24 militares e integrantes da inteligência israelense  contam sobre suas ações e o uso de inteligência artificial em Gaza. Antecipo: a obra confirma que Netanyahu e seu governo cometem crimes de guerra e contra a humanidade. Não acredita? Assista ao filme, em cartaz em poucos cinemas pelo país

Sentei na cadeira do Cinema Petrobrás conhecendo pouco do doc. Sabia dos soldados, da IA e que ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza Achava que seu  título associava nazis com Gaza. Errado. Naza é uma derivação do termo militar em hebraico “Nezek Agavi” e significa “danos colaterais”. É assim que os soldados chamam os civis mortos em um bombardeio ou um ataque de drone.

Daqui pra frente é só spoiler. Quantas notícias ou comentários você ouviu criticando o Hamas por usar escudos humanos para proteger suas lideranças dos ataques de Israel? Eu ouvi vários e aceitava como verdade. Segundo os depoimentos dos militares, as mortes de civis não seriam apenas imprevistos. Eram previstas, calculadas e consideradas aceitáveis antes do bombardeio.

Após o 7 de outubro, o Serviço de Inteligência israelense usou Inteligência Artificial para monitorar as mensagens e a localização dos celulares palestinos. Era assim que caçava as lideranças do Hamas. Como eles ficavam em trânsito, era difícil assassiná-los. O Exército percebeu que o melhor momento para matá-los era à noite em suas casas. Sim, segundo o documentário, foi uma escolha do Estado não se importar com a morte de civis. Basta alguém de uma família, uma criança, dizer  ao telefone que o “o papai está em casa”, “ papai chegou”, para a IA avisar a oportunidade aos militares, que confirmam o áudio e autorizam o ataque. Soldados israelenses, dentro de um um prédio no centro de Tel Aviv, enviam bombas ou drones, que atravessam os ares e acertam o alvo em Gaza, matando toda a família.

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Morreu uma liderança e mais 8 nazas, diz um soldado. Mulheres, crianças e idosos mortos, são 15 nazas, 20 nazas enterradas sob os escombros de um prédio. No processo de desumanização dos palestinos as pessoas assassinadas são um número associado a uma palavra vestida de desprezo. Para se certificar das mortes, os soldados seguem escutando os celulares palestinos. E ouvem os gritos de sangue, morte e desespero.

Ah, mas isso foi um erro, aconteceu só uma vez. Os soldados dizem que mataram milhares de pessoas assim. E há muitos erros. Um dono de padaria foi morto porque se comunicava com várias pessoas ligadas ao Hamas Era um só um dono de padaria, descobriu o Exército posteriormente. Mais: a obra afirma que a destruição de todos os prédios ao norte de Gaza não foi uma consequência dos bombardeios, mas uma ordem expressa para dizimar os bairros, para que os palestinos nunca mais voltassem para seus lares. É a lógica do genocídio. E são mais de 73 mil palestinos mortos nos últimos três anos.

Alguns dos entrevistados afirmam, sem carregar arrependimento algum na voz – somente suas silhuetas anônimas na penumbra aparecem na tela –  que é apenas um trabalho técnico, que só estão cumprindo ordens. No pensamento, o senso comum da extrema-direita no país de que não há inocentes em Gaza, crianças e idosos estão envolvidos com o Hamas. Todos podem ser mortos. Já outro dos soldados contou que visitou os campos de concentração nazistas na Polônia e refletiu que ele sempre acreditou e continua acreditando que Hitler é o mal. Porém, com o que acontece em Gaza e sua participação na guerra, ele se pergunta: “quem sou eu?”

O governo de extrema-direita, evidentemente, criticou o filme. Netanyahu disse que “estamos combatendo a incitação ao antissemitismo em todo o mundo, mas, quando ela vem de dentro de nós, é intolerável”. O ministro da Cultura, Miki Zohar (do Likud, mesmo partido de Bibi), ameaçou cassar a cidadania dos diretores. O exército israelense ordenou uma investigação sobre a divulgação não autorizada de material confidencial e em nota, escreveu que a narrativa do filme se baseia em “erros factuais significativos”, resultantes de “representações manipuladas e enganosas” da realidade. Com isso, os diretores teriam propagado uma “imagem distorcida, enganosa e desonesta” sobre a atuação das FDI.

Segundo reportagem do jornal italiano La Repubblica, o clima em Israel é de ataque contínuo àqueles que se opõem às políticas e narrativas governamentais sobre o país e suas ações militares. Nas últimas semanas, intelectuais, escritores e cantores que se manifestaram contra o governo foram agredidos fisicamente ou ameaçados por ativistas ligados à extrema-direita.

Yuval Abraham e Rachel Szor integraram o coletivo que dirigiu “Sem Chão” (No Other Land) que venceu o Oscar de melhor documentário no ano passado ao retratar ataques de colonos, com apoio da FDI, a vilarejos na Cisjordânia. O diretor Abraham afirmou que, apesar das dificuldades, pretende estrear o filme em vários cinemas de Israel. “Faremos tudo o que pudermos para distribuir este filme o mais amplamente possível em Israel”, prometeu.