
Loyola e o deserto bolsonarista
O romance “Não Verás País Nenhum", de 1981, transita entre o autoritarismo e os impactos de uma catástrofe climática. Nada mais 2026.

Às vezes acontece. Você lê um livro escrito há 45 anos e ele segue vivo, conversa com as angústias do presente. Estou no começo de “Não Verás País Nenhum,” de Ignácio de Loyola Brandão. O livro é de 1981. Nessa época, a volta dos militares aos quartéis era um sonho alcançável. As “Diretas Já” são de 1983, Sarney assumiu em 1985. O discurso em defesa do meio ambiente engatinhava, apesar da Conferência das Nações Unidas, em Estocolmo, 1972, alertar a necessidade de mudanças no desenvolvimento industrial para o planeta não capitular.
Esse é parte do contexto em que o romance foi escrito e lançado, e é entre essas duas margens que as páginas navegam, o autoritarismo e os impactos de uma catástrofe climática. Nada mais 2026. Poderia dizer que a boa ficção científica tem essa qualidade de prever o futuro. A escritora estadunidense Ursula K. Le Guin discordaria. Para a autora de “Os Despossuídos”, o escritor não profetiza, só usa metáforas para descrever o presente.
Estou no início do livro, me acostumando com Souza, um ex-professor que tenta sobreviver em uma São Paulo do futuro em que a vida é sinônimo de escassez. Sob a rigidez burocrática de um governo chamado “O Esquema” é preciso guardar fichas para beber água e alimentar-se com comida “factícia”, que dilacera o corpo aos poucos. Um furo surge na mão de Souza e desencadeia uma reflexão sobre seu passado e seu sentido de mundo.
Ele recorda que o governo fez uma grande campanha contra as críticas. Publicar casos de corrupção e desmatamento na Amazônia eram um desserviço. O pessimismo inviabilizaria o país. “De que servem os fatos para o país? O Esquema deve governar tranquilo. O povo deveria escolher. Se as más notícias continuassem, o Esquema não teria condições de administrar”, escreve o livro. Os jornais morreram, a violência e a devastação prevaleceram.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesContinua o livro: “Uma tarde, célebre, ele declarou pela televisão: “Devemos estar orgulhosos com a conquista que acabamos de fazer. Um grande feito deste governo que pensa no futuro”. Não é apenas a África que pode se orgulhar do seu Saara A partir de hoje”, e ele sorriu, embevecido, “contamos também com um deserto maravilhoso, centenas de vezes maior que o Saara, mais belo. Magnificente. Estamos comunicando ao mundo a nona maravilha”
A Amazônia morria e virava deserto, o governo celebrava. É como comemorar as mortes na pandemia. Aceitar milicianos no poder. Minimizar tentativa de golpe. Achar que tempo bom era o da ditadura. Que matar jovens negros periféricos é dano colateral. Que o racismo é tolerável. Que direitos trabalhistas são coisas ultrapassadas. Que mulheres devem ser submissas. Que indígenas atrapalham o progresso. Que homossexualidade é desvio. Que bilionário fica rico trabalhando.
Sob um um calor escaldante, Souza atravessa a cidade até um trabalho vazio. Volta para casa e encontra um casamento falido. Oprimido pela vigilância dos Civilmilitares, bebendo urina tratada, desconhece o tamanho dos privilégios da elite burocrática, mas sabe que existem bairros ricos. Até que ele lembra de um professor que protestou contra o deserto, um biólogo com teses nos Estados Unidos e na Europa, prestes a se aposentar. Desapareceu. A reação foi violenta.
E o lamento pesa sobre Souza: “Levei alguns meses perplexo, até a vergonha tomar conta de mim. Senti que deveria ter atravessado o hall e me colocado ao lado do professor. Tivéssemos todos feito isso, algo poderia ter mudado. Os gestos decisivos faltaram em bons momentos de nossa história. Dar as mãos simbolicamente. Penso muito nisso. Já se passaram tantos anos e ainda me imagino. Nós, juntos, diante da universidade. Ou aniquilavam todos, ou voltavam atrás. Permitimos. Não me conformo. Culpa que carrego. Ela me corrói. Nada pior que a memória do gesto não realizado”
Eleição não resolve um país. Seria uma decisão coletiva e temporária para uma direção, não fossem as amarras do “Esquema”, nessa nossa democracia atrelada ao mercado. A representatividade é ilusória quando homens brancos e ricos dominam o Estado. Independente do vencedor no próximo domingo, é preciso participar muito mais da política. Não basta se levantar por 15 dias a cada quatro anos. É preciso tomar partido. Digo isso a mim, a você, a Souza. Nada pior que a memória do gesto não realizado.

