Do tempo do cofre ao tempo do vazamento barato

Flávio Dino freia as quebras de sigilo em lote de uma CPMI que trocou a investigação pelo espetáculo. Sigamos.

atualizado

Compartilhar notícia

Reprodução/TV Senado
CPMI do INSS faz um minuto de silêncio pelas vítimas das enchentes em MG - Metrópoles
1 de 1 CPMI do INSS faz um minuto de silêncio pelas vítimas das enchentes em MG - Metrópoles - Foto: Reprodução/TV Senado

Houve um tempo em que as comissões parlamentares de inquérito tratavam informações sensíveis, como declarações de Imposto de Renda, com o rigor de um segredo de Estado.

Os documentos eram guardados em cofres, e o acesso era restrito e vigiado.

Hoje, a realidade em Brasília é outra: dados protegidos pelo sigilo fiscal são vazados com naturalidade e vendidos a preço vil para alimentar manchetes. A decisão do ministro Flávio Dino de suspender o lote de quebras de sigilo aprovadas “no atacado” pela CPMI do INSS é um freio necessário em um rito que trocou o regimento pelo espetáculo.

O paralelo histórico com 1992, no auge do governo Collor, ilustra o abismo ético atual. Quando a revista Veja obteve acesso à declaração de renda de PC Farias, o tesoureiro do esquema, os dados não saíram da sala em forma de cópia; foram transcritos à mão por um repórter sob vigilância. Para que a informação fosse publicada com segurança jurídica, foi necessária uma “lavagem” institucional: um parlamentar assumiu a responsabilidade de ter recebido os dados de fonte anônima.

Naquela época, os números provavam uma vida incompatível com fontes legais e derrubaram um presidente.

No caso atual, envolvendo o Lulinha, o que se vê é o uso do espanto numérico sem a contrapartida da prova. Publicam-se movimentações de milhões de reais como se o valor, por si só, fosse evidência de crime.

Até o momento, porém, não surgiu o elo entre esses ativos e os desvios nas aposentadorias investigados pela CPMI.

A violação da intimidade fiscal parece servir mais à polarização do que à instrução do processo.

Se a CPMI do INSS se transformou em um balcão de vazamentos baratos, o Estado de Direito está sob ameaça.

O cancelamento das quebras de sigilo em lote é um lembrete de que a justiça exige critérios individuais e fundamentação, não decisões tomadas no grito em sessões tumultuadas.

O vazamento de dados sigilosos é crime, e enquanto as instituições não buscarem a origem dessas filtragens, o devido processo legal continuará sendo atropelado pela conveniência política.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?