Como Índia e Vietnã entram na corrida das terras raras

Países definem políticas e investimentos para diminuir dependência da China

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Foto colorida com três pedras de neodímio, elemento de terras raras - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida com três pedras de neodímio, elemento de terras raras - Metrópoles - Foto: RHJ/ Getty Images

Enquanto a China mantém o domínio global sobre o processamento de terras raras, Índia e Vietnã aceleram suas próprias estratégias industriais para transformar suas reservas minerais em poder econômico, geopolítico e tecnológico. O Vietnã aposta  no protecionismo para desenvolver sua cadeia produtiva, em movimento similar ao chinês. A Índia investe pesado e tenta parcerias estrangeiras. Como o Brasil, os países têm boas reservas, mas uma industrialização distante.

A China ainda concentra cerca de 70% da extração global e aproximadamente 90% da capacidade de refino de terras raras, além de produzir quase 90% dos ímãs permanentes usados em turbinas eólicas, carros elétricos e equipamentos militares. É justamente essa etapa intermediária — o chamado “midstream”, que inclui separação química e processamento avançado — que países emergentes tentam desenvolver para escapar da dependência chinesa.

Índia aposta em autossuficiência e indústria de ímãs

A Índia possui uma das maiores reservas mundiais de terras raras, estimadas em cerca de 6,9 milhões de toneladas, mas responde por menos de 1% da produção global. Para mudar esse cenário, o governo indiano aprovou um pacote de aproximadamente US$ 800 milhões voltado à fabricação doméstica de ímãs permanentes de terras raras.

O plano inclui corredores industriais nos estados de Odisha, Kerala, Andhra Pradesh e Tamil Nadu, integrando mineração, pesquisa e processamento. Paralelamente, a Missão Nacional de Minerais Críticos (NCMM), pretende controlar desde a exploração mineral até reciclagem de lixo eletrônico.

O discurso oficial indiano enfatiza segurança econômica e autonomia industrial. O primeiro-ministro Narendra Modi afirmou que “novas iniciativas nas áreas de minerais críticos, terras-raras e cooperação energética garantirão segurança econômica e resiliência das cadeias de suprimentos”. Apesar da ambição, especialistas indianos reconhecem que o maior desafio não está na mineração, mas na ausência de infraestrutura de processamento avançado. O analista Pranay Kotasthane, do Centro de Pesquisa Takshashila, argumenta que o domínio chinês é resultado de décadas de política industrial coordenada. Segundo ele, “apenas um país pode fazer o ‘China plus one’ acontecer, e esse país é a própria China”. China+1 é uma estratégia em que as empresas mantêm parte de suas operações de fabricação ou fornecimento na China, mas expandem ou diversificam sua produção para pelo menos um outro país, diminuindo a dependência do mercado interno.

Vietnã endurece regras e tenta replicar modelo chinês

O Vietnã adotou uma estratégia mais agressiva. O governo aprovou mudanças legais que proíbem a exportação de terras raras não processadas a partir de 2026 e condicionam a exploração mineral à instalação de capacidade industrial no próprio país.

A medida busca verticalizar a cadeia produtiva e transformar o país em fornecedor global de materiais processados para setores de alta tecnologia. O plano vietnamita prevê produção anual de até 2 milhões de toneladas de minério bruto e processamento entre 20 mil e 60 mil toneladas de óxidos de terras raras até 2030. As reservas do país  são 3,5 milhões de toneladas, segundo o Serviço Geológico dos EUA. A estratégia inclui:expansão do refino químico, produção de metais e ímãs permanentes; atração de investimentos estrangeiros com exigência de transferência tecnológica, maior controle estatal sobre licenças e exportações.

O economista Richard Ramsawak, da RMIT do Vietnã, avaliou que a proibição de exportação de minério bruto foi desenhada para permitir ao Vietnã “capturar uma fatia maior do valor na cadeia de suprimentos de terras raras” e fortalecer capacidades industriais de alta tecnologia. Ao mesmo tempo, o especialista observou que a medida reconhece “as limitações atuais do país em tecnologias avançadas de separação e refino”.

Em maio de 2026, Índia e Vietnã anunciaram a meta de elevar o comércio bilateral para US$ 25 bilhões até 2030, com foco em minerais críticos, energia e terras raras.Especialistas apontam que Índia e Vietnã possuem características complementares:a Índia oferece escala industrial e mercado consumidor e o Vietnã aposta em abertura manufatureira e política industrial..

As discussões internacionais também reacendem o debate sobre o papel brasileiro. O Brasil possui uma das maiores reservas do mundo, mas ainda opera majoritariamente sob lógica extrativista, sem uma política integrada de refino e industrialização.

Em fevereiro deste ano, Brasil e Índia assinaram um acordo para cooperação em terras raras. A ideia é combinar a exploração das reservas brasileiras, estimadas em cerca de 21 milhões de toneladas – ou 20% do total mundial – com os investimentos indianos em refino e fabricação de produtos.

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