Zeitgeist, “o espírito do tempo” (por Otávio Santana do Rego Barros)
A democracia se fracionará em muitas democracias, ou em nenhuma
atualizado
Compartilhar notícia

Ao longo de séculos, o homem foi, diversas vezes, obrigado a empreender caminhadas purgadoras para encontrar meios de sobreviver aos desafios.
O ciclo se repetia initerruptamente.
Como indivíduo, comunidade e nação, parece que chegou a hora de novamente trilharmos um caminho de peregrinação, meditando para responder a razão da retribalização egoísta da sociedade mundo afora.
Nessa jornada, não contaremos com auxiliares para transportar os fardos de nossas angústias. Seremos o guia e o carregador de nosso destino.
As bolhas digitais, oráculo de muitos, estarão desconectadas, os meios de imprensa tendenciosos fora de nosso alcance, o orientador messiânico em quem confiamos sumirá do púlpito, as pessoas que acreditamos antolhadamente, longe de nossos gritos de socorro.
A pergunta que carregaremos na mochila é simplória: Por quê? A resposta vira, mas será solitária e indelegável.
O entorno dessa peregrinação é o mundo encurtado em suas distâncias pela tecnologia, incapaz de girar sem solavancos nos movimentos de rotação e translação em torno da estrela guia, o Sol.
Um mundo no qual a sociedade carece de compreender qual o seu Zeitgeist (espírito do tempo) em que vive.
Os seres humanos reflexionam sobre acontecimentos anteriores e quando esses parecem lhes dizer respeito, eles tentam, consciente ou inconscientemente, ajustar seu comportamento de modo a atingir ou a evitar um resultado já acontecido e comparável.
O aprendizado é possível, claro.
Muitos sabem tirar das agruras pretéritas ensinamentos para o futuro a ser enfrentado. Mas, de momento, nos parece que a maioria dos indivíduos está ajustando seu comportamento sem se valer das experiências do passado.
Percorrem a trilha sempre às escuras. Ou se valem de informações não certificadas, colhidas em desconhecidos que lhe cruzem o caminho.
Qual o espírito do tempo respirado na adolescência do século 21?
É um espírito do tempo semelhante àquele anterior à primeira grande guerra mundial, no qual os estados-nação prevaleciam na ordem mundial?
Ou é mais compatível com um período entre as grandes guerras, no qual as democracias se digladiavam com os regimes totalitários baseados no comunismo, no fascismo, no nazismo ou em monarquias constitucionais autoritárias?
Quiçá esteja em linha com o “fim da história”, aclamado com a debacle da União Soviética, iniciada na queda do muro de Berlin?
Em nosso microcosmo, qual o Zeitgeist das Terras de Santa Cruz?
Quando um país se debate em um mundo sem referências, sacudido pelas correntes ideológicas de muitos matizes, a DEMOCRACIA se fraciona em muitas democracias, ou em nenhuma.
Uma democracia fracionada, a caminhar para a inanição eleitoral do nós contra eles.
Uma democracia fracionada, incapaz de responder aos problemas pungentes de nosso país, que estimula enfrentamentos para propagar ideologias alternativas ou esconder incapacidades.
Uma democracia fracionada, que se espelha em outras “não democracias” como solução não amadurecida para nossos problemas.
Uma democracia com lideranças que se pretendem sultanísticas e nunca inspiradoras.
Seja qual for o espírito do tempo, caro leitor, é seu dever aprender com as cenas dramáticas de embates não democráticos que chegam de todos os rincões do planeta, no passado e no presente, afinal não há Sherpas para carregar suas mochilas.
Paz e bem!
Otávio Santana do Rego Barros. General de Divisão da Reserva


