Vorcaro: entre Robin Hood e Macunaíma (por Roberto Caminha Filho)
Quando o país transforma escândalos em rotina, não faltam personagens — faltam instituições
atualizado
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O nosso Brasil é um filme muito mal resolvido. Tem heróis que parecem vilões, vilões que se vendem como benfeitores e uns cinéfilos que já não sabem se aplaudem, protestam ou mudam de lazer.
No meio desse roteiro tropical, surge Vorcaro — personagem que já entrou para o folclore contemporâneo. Para alguns, alguém que iluminou as mais escuras engrenagens da máquina pública e bancária. Para outros, apenas mais um capítulo da velha novela onde interesse privado e poder público dançam agarradinhos, bochecha com bochecha.
E nós, os mais afastados brasileiros, ficamos ali: entre a curiosidade e o constrangimento. Ficamos como bons jurados: nem linchamento, nem absolvição automática. Cabe aqui um pedido, quase uma prece institucional, aos nossos juízes e ministros: pelo amor ao Homem, serenidade!
Nem a pressa do linchamento. Nem a preguiça da complacência. Justiça não é Chá de Ipadu mas também não pode ser anestesia.
O Brasil já viu esse filme muitas vezes. Sempre com trilha sonora diferente, mas com o mesmo final provisório: indignação momentânea e esquecimento sacana e conveniente.
O nosso sistema é pródigo em criar seus próprios artistas. Durante décadas, vendemos a ideia de que nossas instituições funcionavam “para o bem do brasileiro”. Funcionavam, sim — mas muitas vezes como um “Clube dos Cafajestes”…bem fechado.
Quando a máquina pública e parte do sistema financeiro operam com baixa transparência e alta complexidade, criam-se ambientes perfeitos para relações… criativas. Enquanto americanos e europeus exigem que o sol esteja sobre tudo, para clarear e purificar todos os atos e papéis, os brasileiros multiplicam sigilos de 100 a 1000 anos.
E é nesse terreno que surgem figuras ambíguas.
Vorcaro, nesse palco, é o Oscar de melhor artista de 2026. Há quem o veja como um Robin Hood moderno, cercado de cofres e mistérios na sua floresta encantada. Outros preferem enxergar um novo Macunaíma – o Herói sem Caráter, alguém que teria exposto as entranhas de um sistema pouco transparente, distribuindo o produto do seu trabalho por todas as camadas sociais.
Mas o Brasil não é conto de fadas — e muito menos história infantil com moral simples.
Dizem que Vorcaro seria “mais brasileiro que Macunaíma”. Pode até ser. Mas o Brasil que precisamos não é o da falta de caráter — é o da responsabilidade.
Responsabilidade de quem opera. Responsabilidade de quem regula.
Responsabilidade de quem julga.
Entre a bondade e a firmeza, para um brasileiro, existe um terreno imenso para se conhecer. Pedir “bondade” cega é tentador — mas perigoso. Bondade sem critério vira impunidade. Dureza com total ausência de critério vira arbitrariedade. Estaremos convivendo com isso? entre esses dois extremos mora a civilização.
Os nossos juízes e ministros não foram escolhidos para agradar plateias, mas para separar fato de narrativa, prova de versão, responsabilidade de conveniência.
E isso exige algo raro no Brasil contemporâneo: coragem silenciosa. O cidadão de 16 ou de 70 anos não quer vingança nem espetáculo. Quer previsibilidade. Quer saber que as regras valem para todos, seja Cid ou Vorcaro — inclusive para os que frequentam os andares mais altos. Porque o verdadeiro cansaço do brasileiro não é com um escândalo específico. É com a repetição.
Trocam-se os nomes, mantêm-se os métodos. Trocam-se os discursos, preservam-se os atalhos. E o país segue girando em círculos, como se estivesse preso a um roteiro que ninguém tem coragem de reescrever. Aí fizemos: O Agente Secreto, para, do Céu, ouvirmos as gargalhadas de Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Costinha, Chico Anísio, Jô Soares e toda a turma das chanchadas.
Mudar o gênero do Brasil. Talvez esteja na hora de mudar o gênero da história. Menos novela, mais contrato. Menos personagem, mais instituição. Menos improviso, mais regra clara.
Se Vorcaro e quadrilhas são culpados ou não, cabe à Justiça dizer — com provas e cúmplices, não com aplausos.
Mas se o sistema continuar produzindo casos como esse, aí o problema é maior que qualquer nome.
No fim das contas, o Brasil não precisa decidir se seus personagens são heróis ou vilões. Precisa garantir que ninguém tenha espaço para ser nenhum dos dois, porque quando o país depende de personagens, ele enfraquece, mas quando depende de regras, ele prospera.
E isso, meu querido, simpático e amado leitor, não é questão de opinião. É questão de maturidade nacional.
Roberto Caminha Filho, economista, de camarote, vê a dívida interna se multiplicando e furando nossos bolsos.


