Um seguro contra terremotos geopolíticos (por Marcos Magalhães)
Mercosul e a União Europeia miram além da pauta comercial
atualizado
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Ao anunciarem o acordo para a formação de um megabloco reunindo mais de 700 milhões de pessoas, o Mercosul e a União Europeia miram além da pauta comercial. Ambos apostam em uma apólice de seguros contra terremotos geopolíticos que estão a caminho.
Como em todas as apólices, nenhum dos países que compõem os dois blocos estará totalmente livre de riscos. Sempre haverá as exceções – e serão muitas. Também haverá preços a pagar, dos dois lados do Atlântico. Os seguros costumam ser caros.
Além disso, naturalmente ainda haverá um longo processo para que o acordo chegue ao mundo real, especialmente por causa da resistência de um dos países fundadores do processo de integração europeia – a França do presidente Emmanuel Macron.
Mesmo assim, prevalece um otimismo cauteloso sobre as chances de sucesso do acordo. Os negociadores pareciam ter uma calculadora em uma das mãos e um grande mapa do mundo na outra.
De um lado, sim, as oportunidades comerciais são visíveis a olho nu. Empresas dos dois lados do oceano terão acesso privilegiado a mercados ainda hoje bastante protegidos. Mesmo que esse acesso seja facilitado ao longo de um longo processo de transição.
Foram 25 anos de uma negociação bastante difícil. O acordo foi temperado por cláusulas de salvaguarda que darão, por exemplo, a indústrias brasileiras e argentinas a oportunidade de desenhar estratégias de longo prazo para sua adaptação ao novo cenário.
O mapa-múndi fica por conta do olhar de longo prazo. Um olhar que procura detectar a movimentação das placas tectônicas da geopolítica mundial. Haverá terremotos? Acomodações? É preciso se preparar para essas e outras hipóteses.
Ao traçar possíveis cenários, os estrategistas europeus e sul-americanos precisaram ter em vista dois importantes movimentos: a crescente rivalidade entre duas grandes potências e o delicado momento do planeta, sob risco de uma tragédia climática.
A Europa, por exemplo, situa-se geograficamente entre Estados Unidos e China, as duas grandes superpotências cada vez mais envolvidas em uma rivalidade temperada por crescentes disputas comerciais e grandes apostas na supremacia tecnológica.
O Mercosul, por sua vez, busca – apesar das enormes divergências internas após a posse do presidente argentino Javier Milei – uma nova inserção no mundo dominado pela rivalidade entre as duas grandes potências.
Para a Europa, a aposta na América do Sul poderá ajudar suas empresas a sobreviverem na grande disputa por mercados. O acordo também poderá ajudá-las a ter acesso facilitado a minerais críticos para o processo de transição climática.
Muitos desses minerais estratégicos estão presentes no subsolo dos países que integram o Mercosul – como o lítio da Argentina e o nióbio do Brasil.
E haverá crescente interesse internacional por essas reservas. Caberá aos países sul-americanos negociarem condições que evitem a repetição de modelos puramente primários exportadores do passado.
Para as empresas do Mercosul, igualmente, abrem-se enormes oportunidades de ter acesso, ainda que parcelado no tempo, ao enorme mercado europeu.
Soa como uma parceria estratégica anunciada pouco antes da posse de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. Os europeus, os sul-americanos e o mundo todo já sabem que vem aí uma enorme tempestade de tarifas comerciais.
Trump não faz segredo de que buscará todos os meios necessários de proteção dos interesses norte-americanos. Ainda que isso represente grandes riscos para os interesses econômicos e comerciais de seus aliados, principalmente os europeus.
Até o momento Trump não parece ter dedicado muita atenção em seus cálculos estratégicos à América do Sul. Mas suas palavras pouco gentis a respeito dos países que integram o Brics e de suas intenções de buscar alternativas ao dólar indicam suas intenções.
A China, por sua vez, parece manter o Mercosul – em especial o Brasil – na sua lista de prioridades. Apenas alguns dias após o anúncio do acordo com a União Europeia, duas empresas chinesas anunciaram novos investimentos na produção de veículos elétricos e híbridos no país.
A melhor parte dessa notícia é a de que os investimentos em fábricas virão acompanhados de apostas em pesquisa e desenvolvimento – seja por meio de associação com universidades brasileiras ou da criação de centros de inovação.
Ao Brasil e ao Mercosul caberá aprender a navegar em oceanos de incerteza geopolítica. O acordo com a União Europeia parece um bom passo nesse sentido. A parceria crescente com a China também soa como boa aposta para o futuro. A incógnita ainda é a futura relação dos países do bloco com os Estados Unidos de Donald Trump.
Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.


