Um balde de água fria na IA americana (Por João Pedro Pereira)

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Brasil lidera na adoção de inteligência Artificial na América Latina – Metrópoles
1 de 1 Brasil lidera na adoção de inteligência Artificial na América Latina – Metrópoles - Foto: Vithun Khamsong/Getty Images

Quando nesta manhã comecei a ler a imprensa internacional e vi as notícias sobre a queda violenta das empresas tecnológicas em bolsa, imediatamente surgiu a ideia de arrancar esta newsletter com a analogia de uma segunda-feira negra, evocando a derrocada de 1987.

Mas, como muitas vezes acontece, a Internet forneceu uma melhor comparação: o DeepSeek, um chatbot chinês semelhante ao ChatGPT, é um momento Sputnik (como também acontece muitas vezes na Internet, a autoria da comparação é difusa).

O Sputnik, desenvolvido na União Soviética, foi o primeiro satélite artificial a entrar em órbita da Terra. O lançamento, em outubro de 1957, colocou o Ocidente em alerta e os EUA mergulhados numa crise de confiança. Não apenas a tecnologia soviética se tinha antecipado, como a potência rival tinha agora um aparelho que passava por cima do território americano, abalando a percepção de segurança geográfica de que os EUA tinham até aí beneficiado. Foi um acontecimento de enormes consequências. O mundo vivia em plena guerra fria e em paranóia nuclear. O lançamento soviético acelerou a corrida ao espaço, contribuindo para a fundação da NASA e da ARPA, a agência de investigação onde uma década mais tarde viria a ser inventada a Internet.

Na corrida tecnológica do século XXI, a China não está a protagonizar um momento de pioneirismo. Mas fez aquilo que já foi a fórmula de sucesso do país noutros sectores: criou um produto semelhante aos que se fazem no Ocidente, mas com muitos menos custos de produção.

A aplicação da DeepSeek foi lançada há uma semana e tornou-se a mais popular nas lojas de vários países, incluindo nos EUA. Hoje, era a aplicação mais descarregada na loja da Apple em Portugal. Esta história, porém, não começou agora. É um reflexo dos tempos que o alarme seja motivado pela popularidade da aplicação e não pelo desenvolvimento da tecnologia que a suporta e que já está na forja (e é bem conhecida) há algum tempo.

A DeepSeek foi fundada em 2023 por um empreendedor chinês chamado Liang Wenfeng, que enriqueceu graças a uma firma de investimentos que criou há dez anos e que usa inteligência artificial para fazer transações nos mercados financeiros. Liang transferiu o conhecimento adquirido (e parte do capital) para o desenvolvimento de modelos de linguagem. Estes modelos são disponibilizados em código aberto, o que significa que qualquer pessoa os pode analisar, modificar e usar. Nada disto é extraordinário: a Meta faz o mesmo com os seus modelos de linguagem, chamados Llama.

A diferença é que os modelos da DeepSeek foram desenvolvidos com muito menos poder de computação do que os concorrentes das empresas americanas, o que significa que tiveram um custo muito mais baixo.

Em dezembro, a empresa divulgou o modelo DeepSeek V3, que diz ter treinado por menos de seis milhões de dólares. O leitor está desculpado se tiver por um momento pensado que falta um zero neste número; é uma quantia minúscula para este sector. O DeepSeek V3 teve um desempenho melhor ou semelhante ao dos modelos recentes de conhecidas empresas americanas, como a OpenAI e a Anthropic. A DeepSeek desenvolveu também o modelo R1, focado em questões de lógica e matemática.

Eis-nos assim chegados ao momento Sputnik dos nossos dias.

 

(Transcrito do jornal PÚBLICO)

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