Tudo pelo eleitoral (por Hubert Alquéres)

As eleições de 2022 e 2026 deixam essa lição incômoda: o populismo eleitoral não pertence a um campo ideológico específico

atualizado

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Lula e Jair Bolsonaro -- Metrópoles
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A cem dias da eleição de 2022, o Datafolha apontava Lula à frente das intenções de voto com vantagem de dezoito pontos e possibilidades reais de vitória ainda no primeiro turno. Diante desse cenário, Jair Bolsonaro recorreu ao peso da caneta presidencial para tentar reverter o quadro por meio da chamada PEC Kamikaze. A joia da coroa de seu pacote de bondades foi a elevação do Auxílio Brasil de 400 para 600 reais. Ampliou ainda o número de beneficiários, praticamente dobrou o valor do auxílio-gás, zerou impostos federais sobre combustíveis, criou benefícios para caminhoneiros e taxistas e estendeu o crédito consignado aos beneficiários do programa.

Não por acaso, Lula e o PT classificaram o pacote como “eleitoreiro”, acusando o governo de promover uma espécie de compra de votos com recursos públicos. Argumentavam que se tratava de populismo fiscal e que Bolsonaro era incapaz de enfrentar problemas estruturais como a inflação, além de representar risco às contas públicas. Ainda assim, estavam presos a uma armadilha política: criticar sem votar contra, sob pena de pagar o preço eleitoral de se opor a medidas populares.

Os efeitos políticos foram imediatos. O pacote ajudou a estancar a queda de popularidade de Bolsonaro e reduziu significativamente a diferença nas pesquisas. Dos dezoito pontos iniciais, a distância caiu para três no primeiro turno e se estreitou ainda mais no segundo. Lula venceu, mas por margem apertada: 1,8% dos votos válidos.

Quatro anos depois, o enredo se repete, agora com os papéis invertidos. Diante de um cenário de empate técnico nas pesquisas e de sinais de erosão de sua base política, Lula também passou a lançar mão de medidas de forte apelo eleitoral. Entre elas, destaca-se o “Desenrola 2”, voltado à renegociação de dívidas das famílias, pequenas empresas e produtores rurais. Com quase 29% da renda das famílias comprometida com dívidas, o potencial político da iniciativa é evidente.

O programa não está isolado. Soma-se à ampliação do Move Brasil, com novas linhas de crédito para caminhoneiros, taxistas e motoristas de aplicativos trocarem seus veículos, ao uso de recursos do Fundo Social para habitação, reforçando programas como o Minha Casa Minha Vida, e à suspensão de multas de pedágio no sistema Free Flow, medida que alcança diretamente a classe média e tem vigência até o período eleitoral.

Mais uma vez, a oposição, agora o bolsonarismo, se vê na mesma posição de 2022: critica o caráter eleitoreiro e a ausência de reformas estruturais, mas evita se opor frontalmente às medidas para não incorrer em suicídio político. O padrão se repete, revelando uma dinâmica pouco responsável: políticas públicas sendo moldadas não por estratégia de longo prazo, mas pela urgência do calendário eleitoral.

Esse comportamento tem consequências econômicas profundas, especialmente no agravamento de um problema crítico: o endividamento das famílias. Programas como o Desenrola 2 oferecem alívio imediato, mas não enfrentam as causas estruturais do problema. Funcionam como paliativos, não como solução duradoura.

O cerne da questão está na interação entre política fiscal expansionista e política monetária restritiva. O aumento recorrente dos gastos públicos, muitas vezes impulsionado por medidas de caráter eleitoral, eleva a dívida pública. Com a dívida bruta próxima de 81% do PIB, o governo precisa oferecer juros mais altos para financiar seus déficits. Esse movimento pressiona a taxa básica de juros, que serve de referência para toda a economia.

Forma-se, assim, um ciclo vicioso: o governo gasta mais para estimular a economia e ganhar apoio político; para financiar esse gasto, endivida-se mais; o aumento da dívida eleva o risco fiscal, o que exige juros mais altos; juros elevados encarecem o crédito, reduzem o investimento e pressionam o custo de vida. As famílias, então, recorrem ao crédito para fechar as contas, ampliando seu nível de endividamento.

Programas de renegociação de dívidas atuam apenas na superfície do problema. Reorganizam passivos, mas não alteram o ambiente macroeconômico que gera o endividamento. Sem atacar a raiz — o desequilíbrio fiscal e seus efeitos sobre juros e inflação —, o alívio tende a ser temporário. Em pouco tempo, as famílias voltam a se endividar, reiniciando o ciclo.

O resultado é uma economia que gira em falso, presa entre estímulos de curto prazo e restrições estruturais. A política econômica perde coerência: a área fiscal pisa no acelerador, enquanto a monetária é obrigada a frear. Essa descoordenação compromete a eficácia das políticas públicas e transfere um peso excessivo para o Banco Central, que precisa manter juros elevados por mais tempo.

O pano de fundo de tudo isso é uma cultura política que naturalizou o uso da máquina pública para fins eleitorais. A cada ciclo de quatro anos, repete-se o mesmo roteiro: expansão de gastos, concessão de benefícios e flexibilização de regras fiscais, tudo com o objetivo de influenciar o humor do eleitorado no curto prazo.

As eleições de 2022 e 2026 deixam essa lição incômoda: o populismo eleitoral não pertence a um campo ideológico específico, mas a uma lógica de poder que atravessa todo o espectro político. Quando confrontados com o risco concreto de derrota, governos de direita ou de esquerda tendem a recorrer ao mesmo repertório de medidas de impacto imediato, ainda que de baixa sustentabilidade no longo do tempo. Essa similaridade faz lembrar a frase do Segundo Império, quando liberais e conservadores se revezavam no governo: “Nada mais parecido com um saquarema do que um luzia no poder.”

No fim, quem paga a conta é a sociedade. E o país segue prisioneiro do curto prazo, postergando as reformas e escolhas de que depende seu futuro.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

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