Todo Cambia (por Mary Zaidan)

Depois de um vendaval de más notícias, Lula respira e vê seu principal adversário ser atropelado pelo tsunami Master

atualizado

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LUIS NOVA/ESPECIAL METRÓPOLES @LuisGustavoNova
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva PT Palácio do Planalto no lançamento do Novo Desenrola Brasil Metropoles 8
1 de 1 O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva PT Palácio do Planalto no lançamento do Novo Desenrola Brasil Metropoles 8 - Foto: LUIS NOVA/ESPECIAL METRÓPOLES @LuisGustavoNova

Dita e redita, a frase do mineiro udenista e golpista Magalhães Pinto (1909-1996) – “Política é como nuvem; você olha está de um jeito, olha de novo e ela já mudou” – continua vivíssima, embora longe da calmaria que a contemplação do céu pressupõe. Ao contrário. Muitas das mutações passaram a se assemelhar a furacões, a exemplo das investigações do escândalo do Banco Master, e tempestades, como as que atingiram o presidente Lula há exatos 10 dias.

Lula amargou duas derrotas difíceis de deglutir – a rejeição quase inédita de um indicado à Suprema Corte e a derrubada de seu veto à lei da dosimetria, uma espécie de anistia disfarçada, que reduz drasticamente a pena para golpistas. Diante dos reveses, não foram poucos os que apontaram a antecipação do fim do governo e a consequente perda de competitividade do petista.

Animada, a oposição, tendo Flávio Bolsonaro à frente, se entregou a comemorações calorosas com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tido como responsável pela reprovação de Jorge Messias ao STF e pela queda do veto presidencial à lei de constitucionalidade duvidosa, feita sob medida para reduzir a pena do ex Jair Bolsonaro. Em vez de 27 anos e cinco meses de cadeia, ele estará livre em pouco mais de dois anos. “Foi o melhor presente”, disse Flávio, que completou 45 anos no dia da derrubada do veto.

Naquela semana, uma reviravolta era inimaginável. Mas os que alardeavam que o café frio já estava sendo servido no Planalto foram pegos no contrapé já na segunda-feira seguinte com um inusitado convite de Donald Trump para que Lula fosse encontrá-lo na Casa Branca. Ninguém, nem os melhores analistas, conseguiam – e ainda não conseguem – explicar o gesto trumpista depois de tantas críticas feitas a ele pelo presidente brasileiro.

O que se via era temor do lado petista e torcida dos opositores para que Trump desancasse Lula, como fez com os presidentes da Ucrânia Volodymyr Zelenski e da África do Sul Cyril Ramaphosa. Nas redes sociais, bolsonaristas, sob a batuta do deputado cassado e autoexilado Eduardo Bolsonaro, tentavam justificar o encontro com ironia e teses surreais.

Na quinta-feira, depois das mais de três horas de conversa entre os dois, incluindo tapete vermelho e almoço oferecido a Lula na Casa Branca, essa turma praticamente emudeceu. Em reação tímida, o Zero Três até publicou mensagem duvidando do “sucesso” do encontro, contestando a opinião do próprio Trump, que teceu elogios ao petista.

A zonzeira bolsonarista não se deveu apenas à repercussão positiva da agenda, das fotos e do clima amigável, mas em especial por Trump dizer que Lula é “dinâmico”, dificultando que a campanha de Flávio questione a vitalidade de Lula devido à idade. Até Alcolumbre, que já tinha abandonado Lula, pediu audiência com o presidente, tentando se reaproximar.

Para o bolsonarismo, o dissabor com a visita foi fichinha perto do tsunami provocado pela 5ª fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, que detonou o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro.

As investigações apontam que o parlamentar colocou o seu mandato a serviço do dono do Master, Daniel Vorcaro. Receberia mesada de R$ 300 a R$ 500 mil do ex-banqueiro, que também teria custeado viagens, hotéis de luxo e restaurantes estrelados. Ciro era um dos cotados para ser vice de Flávio – “tem um perfil ideal”, afirmava o senador. Agora, o Zero Um tenta se descolar da encrenca, jogando o aliado aos leões, Sem corar, tem dito que os elogios feitos a Ciro teriam sido por mera “cortesia”.

Se nos últimos dias de abril Lula parecia ter se afogado, a semana passada veio como uma espécie de bonança para ele e de severa turbulência para o seu principal adversário. Como na música do chileno Júlio Numhauser, imortalizada por Mercedes Sosa, “todo cambia”. E não há como prever o movimento da biruta, até porque, segundo a última pesquisa Quaest, os dois – Lula e o sobrenome Bolsonaro – são os preferidos, mas quatro em cada 10 eleitores podem mudar de opinião antes do voto. Até lá, as nuvens vão continuar carregadas.

 

Mary Zaidan é jornalista 

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