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Blog do Noblat - 22 anos

Tempo de evitar a tempestade (por Marcos Magalhães)

Desde que Flávio derrube Lula, assumem tranquilos os farialimers, tudo bem

29/09/2026 10:00
Ricardo Stuckert/ campanha Lula e Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro
Lula e Flávio

Era o ano de 1978, início da distensão do regime militar, quando as vozes de Elis Regina e Milton Nascimento levaram pelo rádio duas perguntas a todo o Brasil: “O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou? O que foi feito da vida, o que foi feito do amor?”

Havia uma ponta de desabafo, de desencanto, de decepção mesmo, ao ler a pauta daquele tempo depois das trovoadas de 1964 e das barricadas de 1968.

Alguma coisa havia mudado? Ou ficado pelo caminho? Os ideais de uma ou duas gerações haviam permanecido mesmo ali parados, nas gavetas dos sonhos?

A anistia que viria um ano depois, com a chegada de volta ao Brasil de antigos líderes de oposição ao regime, como Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes, parecia mostrar que alguma coisa estava se movendo.

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E a injeção de ânimo político veio numa onda que começou nas eleições estaduais de 1982, cresceu na campanha das diretas para presidente de 1984 e ganhou forma na Assembleia Constituinte, de 1987 e 1988.

Desenhou-se, a partir de então, todo um ideário que levou à Nova República, a primeira resposta civil ao período militar. E que ideais estavam ali? Democracia, direitos humanos, eleições livres, combate à pobreza e redução da tremenda desigualdade social.

A esses ideais, aos poucos, juntaram-se outros, como o combate ao racismo, a ampliação dos direitos das mulheres, o respeito aos homossexuais e a defesa do meio ambiente. E iniciativas, ainda hoje inconclusas, como a criação de escolas de tempo integral para as crianças mais pobres do país.

Não era tudo que aquelas gerações haviam sonhado. Mas era boa parte. E esses ideais foram se tornando uma base quase consensual do que se poderia chamar de uma sociedade civil mais progressista.

A soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político foram definidos na Constituição de 1988 como fundamentos da República.

Entre os direitos e deveres individuais, previstos no artigo quinto, estavam os de “liberdade de consciência e de crença”. Ninguém seria privado de seus direitos “por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”.

Ou seja, cada pessoa seria livre para adotar uma religião. E também seria livre para expressar suas convicções filosóficas ou políticas. Como, por exemplo, a de não ter nenhuma religião. Um Estado respeitoso das religiões, mas laico.

Nada disso foi seriamente questionado até a ascensão de um movimento de direita radical nascido de influências principalmente norte-americanas e que viria a ser abraçado pelo capitão Jair Bolsonaro, eleito presidente em 2018.

O discurso de Bolsonaro sempre foi mais reacionário do que conservador. Ele adotou um tom teológico em seus discursos. E combateu um a um os ideais que haviam sido adotados pelo país 30 anos antes.

Como deputado ele já havia defendido ditadores e ditaduras, além de torturadores. Como presidente, relegou a segundo plano o combate à pobreza e à desigualdade. Criticou o feminismo, cometeu atos racistas, se colocou em combate direto ao movimento ambientalista.

No final, questionou a própria democracia, com sua tentativa frustrada de golpe. O mundo inteiro se assustou com o vandalismo que tomou conta de Brasília em 8 de janeiro. Menos os adeptos e seguidores do ex-presidente.

Pois agora, quatro anos depois, lá vem de novo a família Bolsonaro. E o senador Flávio se destaca por três propostas: anistiar o próprio pai, cortar gastos públicos e publicar um decreto segundo o qual “O Brasil é do senhor Jesus Cristo”.

As três propostas parecem agradar a quase metade do eleitorado, segundo as pesquisas. Ou são aceitas por quem faz tudo para não ver o atual presidente à frente do governo em 2027.

Entre esses estão analistas da Faria Lima, a avenida dos endinheirados de São Paulo. O mercado teria um semestre de tranquilidade, alegam, com a simples eleição de Flávio Bolsonaro – não importa o que ele diga ou faça.

Desde que ele derrube Lula, assumem tranquilos os farialimers, tudo bem.

Mas estará mesmo tudo bem? Teremos sepultado todos aqueles ideais que chegaram ao topo de nossa agenda política com a redemocratização? Aceitaremos um regime de inspiração teológica e poucas credenciais democráticas?

Tudo isso estará em jogo a partir do próximo domingo, quando ocorre o primeiro turno das eleições. Está na hora de perguntar de novo o que foi feito de tudo o que a gente sonhou, desde que reconquistou o regime democrático.

Na mesma canção em busca dos antigos sonhos, Elis e Milton cantavam: “outros outubros virão, outras manhãs, plenas de sol e de luz”.

Temos vivido dias muito nublados. Mas é sempre tempo de evitar a tempestade.