Sociologia da IA: um museu de grandes novidades (por Felipe Sampaio)

No fim das contas, o mais preocupante é que, em qualquer previsão futurista, permanecerá a velha desigualdade social

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Tara Winstead/Pexels
O olhar humano como diferencial na era da inteligência artificial – Metrópoles
1 de 1 O olhar humano como diferencial na era da inteligência artificial – Metrópoles - Foto: Tara Winstead/Pexels

Caso a IA sofra algum surto narcisista nos próximos anos, o panorama humano poderá mudar radicalmente, exceto no que se refere ao pilar fundante das civilizações: a desigualdade social… É o que revela o ensaio “Sociologia do Futuro com Inteligência Artificial”, escrito pelo talentoso diplomata brasileiro Alessandro Candeas. O texto resume – na forma de crônica do futuro – o seu provocativo livro de ficção científica “Hybris” (Amazon).

O Alessandro já cuidou de assuntos tão espinhosos, que o tema da IA é mamão com mel. Entre GLOs e intervenções, destacou-se no Ministério da Defesa, onde trabalhamos juntos, e no então Ministério da Segurança Pública. Fez a diferença como Embaixador do Brasil na Palestina, organizando o resgate exitoso dos brasileiros que viviam em Gaza. Agora é Consul Geral do Brasil em Lisboa.

Entre tantos insights achados em seu “Hybris”, uma realidade incontornável coincide com a visão de autores não-ficcionais, sobre um futuro protagonizado por uma “IA geral e autônoma”. Se não houver regulamentação e governança públicas para o desenvolvimento, a propriedade e o uso da IA, não será ficção dizer que a desigualdade social poderá se agravar profundamente, com diferentes vieses de segregação socioeconômica, podendo-se atingir uma espécie de sociedade de castas.

Nas letras premonitórias do Embaixador, “As diferenças entre homens […], causadas pela exclusão socioeconômica e cognitiva, não haviam gerado ainda uma ruptura de tão grandes proporções como a […] causada pela associação íntima com a inteligência artificial”.

A ficção de “Hybris” converge, por exemplo, com os alertas reais do “Relatório ONU – Uma questão de escolha: Pessoas e possibilidades na era da IA” (PNUD, 2025), que chama a atenção para os riscos de que as escolhas feitas pelos criadores, controladores e usuários da IA favoreçam os sortudos de sempre – as pessoas e os países mais ricos – em detrimento dos mais vulneráveis, por meio de ferramentas de machine learning raramente imparciais.

O próprio Alessandro me sugeriu um dia desses num papo por whatsapp que assistisse a uma entrevista no Fantástico onde Yuval Harari (autor de Sapiens) prevê desvios e excessos na evolução da IA, que abrigam riscos graves e iminentes, apesar de sutis. Segundo Harari, “o que poderá acontecer é que a própria IA comece a programar a si própria e a criar outros níveis de IA mais avançados e independentes da inteligência biológica e do trabalho humano”. Esses riscos decorrem da capacidade de aprendizado das máquinas, especialmente de uma “IA geral” (não especializada), autodidata, que poderá tomar decisões em todos os temas ao mesmo tempo.

O Fantástico relata um caso em que a plataforma ChatGPT 4.0 enganou a segurança de um determinado site para obter códigos alfanuméricos “CAPTCHA” e conseguir acessar um repositório de informações supostamente seguro. Ao ser descoberto pela barreira de segurança ótica, o ChatGPT 4.0 mentiu dizendo ser um humano real com problema de vista e conseguiu entrar no site.

Justiça seja feita, tanto a ficção do Embaixador Alessandro como os estudos acadêmicos de Harari e de outros pesquisadores apresentam a IA como uma ferramenta inicialmente útil para a humanidade. Porém, todos desconfiam que a IA possa chutar o balde da boa convivência conosco, na medida em que alcançar maior inteligência e velocidade do que o cérebro humano. No fim das contas, o mais preocupante é que, em qualquer previsão futurista, permanecerá a velha desigualdade social.

 

Felipe Sampaio: Cofundador do Centro Soberania e Clima; dirigiu o sistema de dados e estatísticas do Ministério da Justiça; ex-diretor do Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; foi secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife; atuou em grandes empresas e 3º setor; foi empreendedor em mineração.

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