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Semelhanças, diferenças (por Sérgio Vaz)

Os dois lados se igualam em vários pontos. Mas se distanciam no fundamental

atualizado 28/11/2022 0:07

Manifestantes frustados com o resultados das eleições trocam os cartazes de “intervenção militar”por “intervenção Federal” em ato em frente ao QG do Exército Wey Alves/Especial Metrópoles

Não há dúvida de que existem semelhanças entre as manifestações pedindo a anulação do impeachment de Dilma Rousseff e as que rejeitam os resultados das eleições de 2022. Ambas pedem algo irracional, ilógico, absurdo.

Não há dúvida de que existem diversas semelhanças entre petistas e bolsonaristas – por mais que os dois lados protestem violentamente contra a comparação inescapável, obrigatória.

Um artigo do sempre arguto, sagaz, preciso Eduardo Affonso publicado no Globo deste sábado, 26/11, “As massas e os messias” (https://oglobo.globo.com/opiniao/eduardo-affonso/coluna/2022/11/a-espera-do-messias-em-frente-ao-quartel-ou-a-pf-em-curitiba.ghtml), expõe essas semelhanças de uma forma tão clara, tão cristalina, que seguramente uniria petistas e bolsonaristas na mesma rejeição violenta do texto e no ódio ao autor.

Por uma fantástica, incrível coincidência, uma foto da manifestação petista reapareceu para mim no Facebook como lembrança do que eu publiquei exatos seis anos atrás, em 27 de novembro de 2016.

Dilma Rousseff foi cassada no dia 31 de agosto, após um processo no Senado Federal. Um processo que seguiu todos os trâmites previstos na Constituição e na legislação brasileira. E foi presidido pelo ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal – por coincidência, ou não, um amigo pessoal de Luiz Inácio Lula da Silva, desde os tempos em que ele era sindicalista no ABC paulista; Lewandowski, que foi secretário de Governo e de Assuntos Jurídicos de São Bernardo do Campo de 1984 a 1988, chegou ao STF por indicação de Lula. E atualmente está sendo cotado para algum cargo no governo Lula, já que terá que se aposentar do STF, pela compulsória, em maio de 2023.

Em 27 de novembro de 2016 – quase três meses, portanto, após a cassação de Dilma Rousseff em processo no Senado presidido pelo ministro Lewandowski –, petistas faziam manifestações nas ruas pedindo, exigindo que o STF anulasse o impeachment.

Até hoje, mais de seis anos depois, os petistas insistem em que o impeachment foi um golpe. Pediram o impeachment de Fernando Henrique Cardoso desde que ele assumiu, e pediram o impeachment de Michel Temer, o vice de Dilma escolhido pelo próprio partido. Para os petistas, impeachment de presidente dos outros partidos é legal, impeachment de petista é golpe.

Para os bolsonaristas, urna que elege seu mito funciona. Urna que elege outro não funciona, é fraudulenta.

Uma coisa é tão irracional, tão ilógica, tão absurda quanto a outra.

Como diz Eduardo Affonso: “Muda a cor das roupas e bandeiras — sai o vermelho, entram o verde e o amarelo. Mudam as palavras de ordem: ‘Lula livre!’, ‘Intervenção militar!’ (…). Em comum, a inabalável fé num messias. E a negação — do resultado de eleições, da condenação ou do ocaso do seu líder, do seu capitão, do seu salvador”.

Muita, mas muita semelhança.

Mas há uma distância fundamental, gigantesca, amazônica, jupiteriana.

Nas manifestações de seis anos atrás, apelava-se ao STF. Ao Judiciário. Ao guardião das leis.

Nas manifestações de agora, apela-se às Forças Armadas. À força das armas. Ao golpe.

As semelhanças são muitas, é verdade. Mas a distância… Ah, ela faz toda a diferença.

           

Sérgio Vaz é jornalista (ex-Estadão, estado.com.br, Agência Estado, revistas Marie Claire e Afinal, Jornal da Tarde). Edita os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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