Segurança pública e urbanismo social (por Felipe Sampaio)

impossível para uma prefeitura debater um plano de desenvolvimento urbano em um bairro onde o crime constrange a liberdade de expressão

atualizado

Compartilhar notícia

Vinícius Schmidt/Metrópoles
vacinação de policiais e agente de segurança pública em goiás no drive-thru montado na academia de polícia militar, em goiânia
1 de 1 vacinação de policiais e agente de segurança pública em goiás no drive-thru montado na academia de polícia militar, em goiânia - Foto: Vinícius Schmidt/Metrópoles

Não é por acaso que instituições de peso, como o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Escritório da ONU para Drogas e Crime, o INSPER e o Instituto Cidades Sustentáveis, estão apoiando o 1º Encontro Brasileiro de Urbanismo Social (Recife, de 09 a 12 de maio).

O evento confirma a importância que as iniciativas municipais alcançaram no tratamento de temas antes restritos à alçada estadual e federal, especialmente a segurança pública. Os programas de pacificação urbana evoluíram da simples ação policial para a gestão integrada da segurança. Por sua vez, o urbanismo firma-se enquanto matéria de planejamento e de governança qualificada da vida urbana.

Entre os conferencistas do evento, encontram-se os colombianos Sérgio Fajardo e Jorge Melguizo, famosos pelas políticas públicas que, no início dos anos 2000, tornaram Medellín uma das cidades mais seguras da América Latina (após a era Pablo Escobar).

A rigor, o tema não é novidade entre pesquisadores e policy makers da segurança pública, nem mesmo no Brasil, como demonstra o artigo de Jaqueline Muniz e Domício Proença (O Globo, 1996), onde já se dizia que “parte significativa dos recursos e ferramentas para redução dos índices de criminalidade está nas mãos dos prefeitos”.

O que está em jogo é o direito à cidade. Ou seja, o direito efetivo de todas as pessoas, pobres ou ricas, influenciarem a decisão oficial sobre o modo de vida de que desfrutarão na sua cidade. Fajardo, ex-prefeito de Medellín, ensina que o caminho é a intervenção integral, abrangendo o jovem, a família, sua comunidade e a sociedade urbana como um todo.

Porém, para se formular um pacto cidadão entre a municipalidade e os diversos segmentos sociais da cidade em todos os seus territórios, é necessário que haja condições de escutar, com segurança, os representantes das comunidades, os empresários, os vereadores, os servidores públicos e o cidadão comum.

É impossível para uma prefeitura debater um plano de desenvolvimento urbano para a cidade em um bairro onde o crime constrange a liberdade de expressão. É nesse ponto que fica difusa a fronteira entre a segurança pública tradicional e uma gestão municipal participativa. Se o objetivo é recuperar o espaço de diálogo entre o Estado e as pessoas, é fundamental que as políticas de segurança construam pontes para esse diálogo.

O principal ingrediente dessas pontes é a confiança que os cidadãos depositam nas Instituições. Nesse sentido, não se pode transformar bairros em zonas de guerra. É preciso integrá-los às dinâmicas econômicas e sociais da cidade, por meio de planos de desenvolvimento urbano que reduzam as desigualdades territoriais.

É bem verdade que, inicialmente, uma ação policial inteligente pode ter predominância, dependendo do nível de criminalidade local, até que se desmantele o poder territorial das lideranças criminosas que impõem um regime de exceção localizado e impedem a vivência social e política dos cidadãos.

Contudo, os bairros controlados pelo crime não devem ser tratados pela gestão pública como territórios inimigos que se retoma a força. A própria ação das polícias estaduais terá efeito estruturante se ocorrer no âmbito de planos municipais de desenvolvimento, tendo em vista a viabilização da ambiência favorável à pactuação de objetivos com os moradores.

Só é possível consolidar a cidadania do território e o Estado de direito com a participação da sociedade. É imprescindível a abertura do debate amplo com as lideranças populares formais e informais da comunidade, trazendo-as para dentro dos processos de planejamento urbano da cidade como um todo.

 

Felipe Sampaio: diretor do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública SINESP; foi secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; chefiou a assessoria especial dos ministros da Defesa e da Segurança Pública; cofundador do Centro Soberania e Clima.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?