Segurança energética: a crise ensina (por Mariana Caminha)
Há algo curioso nas crises energéticas: elas sempre chegam como surpresa, mas quase nunca são, de fato, inesperadas
atualizado
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Nos últimos dias, voltei a pensar nisso ao ouvir um episódio do Bloomberg Zero, que discute se o mundo está mais preparado para a nova crise de energia que vivemos – a segunda em menos de cinco anos.
Assim como ocorreu durante o conflito entre Rússia e Ucrânia, a guerra envolvendo o Irã volta a pressionar os mercados e expõe, mais uma vez, a fragilidade estrutural do sistema energético global. Não se trata apenas de preços elevados – são interrupções reais no fluxo de energia. O fechamento de rotas estratégicas e a concentração da oferta em poucas regiões revelam um sistema ainda excessivamente dependente – e, portanto, vulnerável.
Segurança energética, portanto, está longe de ser um conceito abstrato. É, antes de tudo, uma questão de estabilidade econômica e política.
Diz-se que nenhuma crise deve ser desperdiçada. E, se há alguma valia neste momento, é a percepção de que estamos diante de uma tentativa – ainda em curso – de reorganização estrutural do sistema energético global.
Na Europa, esse movimento já vinha sendo desenhado. Reduzir a dependência externa, diversificar fontes e fortalecer a produção doméstica tornaram-se prioridades centrais. Ainda hoje, cerca de 60% da energia consumida no bloco é importada – incluindo 90% do gás e 97% do petróleo – o que evidencia o grau de exposição a choques externos.
O Brasil parte de um lugar singular nesse debate. Enquanto a Europa corre para reduzir sua dependência externa, nosso país já opera com uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. O desafio aqui não é começar a transição – é aprofundá-la e torná-la mais resiliente.
Veja o caso da energia solar distribuída, das baterias, da eletrificação e da eficiência energética. O que antes era tratado como agenda climática passa a ser entendido como infraestrutura estratégica. Não apenas para reduzir emissões, mas para reduzir riscos.
As renováveis deixam de ser apenas uma resposta ao futuro e passam a ser uma resposta ao presente. Não apenas uma escolha ambiental, mas uma decisão de segurança.
Isso não elimina os combustíveis fósseis – ao contrário. Em momentos de crise, eles ainda funcionam como válvula de escape. Mas, a cada nova disrupção, reforça-se a percepção de que depender de cadeias globais longas e concentradas é um risco sistêmico.
Talvez o mundo não esteja acelerando a transição energética apenas para salvar o planeta – mas porque começa a entender que, sem ela, não há estabilidade possível.
Como toda boa professora, a crise ensina. Resta saber se estamos, desta vez, dispostos a aprender.


