Rosita, Sydney Possuelo e as histórias que ficam (por Mariana Caminha)
Rosita transitou entre palácios e florestas, entre a diplomacia e a vida simples, unindo universos que raramente se encontram
atualizado
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A última visita do príncipe William ao Brasil aconteceu há pouco mais de um mês. De todas as royal visits feitas ao nosso país – ao menos nos últimos 20 anos – esta foi, certamente, a menos charmosa. Faltava-lhe uma presença essencial: Rosita Watkins.
Uma das mulheres mais elegantes que já conheci, Rosita integrou por mais de duas décadas o quadro da Embaixada do Reino Unido no Brasil. Trabalhamos juntas em diversos projetos e, com o tempo, nos tornamos amigas. Eu adorava aparecer de surpresa na residência do embaixador, onde ela me brindava com histórias deliciosas de seus encontros com o rei Charles (à época, príncipe), com a princesa Diana, o príncipe Harry, além de ministros e autoridades que por ali passaram.
Após ficar viúva, Rosita encontrou um novo amor – o indigenista Sydney Possuelo, ex-presidente da FUNAI e uma das maiores autoridades mundiais na defesa dos povos indígenas isolados. Quando soube do namoro, confesso que fui pesquisar quem era aquele homem. Não resisti à brincadeira:
— Rosita, você está namorando o Indiana Jones brasileiro!
Ela ria, gargalhava mesmo, com aquela alegria leve que sempre a acompanhou.
Rosita amava histórias – e encontrou um par à altura. Sydney Possuelo tem uma vida inteira delas para contar. Histórias de mata fechada, de expedições longas e silenciosas, de encontros únicos com povos isolados. De perigos, descobertas e, sobretudo, de respeito.
Quando jantamos juntos, no apartamento de Rosita, fiquei profundamente impressionada. Ali estava um homem que ajudou a mudar a política brasileira em relação aos povos indígenas isolados. As feições fortes e marcadas de seus 80 e poucos anos contrastavam com a doçura, a sensibilidade e a atenção de alguém que sabe apreciar a vida – e compreender a beleza e a complexidade das culturas indígenas.
Em entrevistas e documentários sobre sua trajetória, Possuelo costuma repetir uma frase que ecoa com força até hoje: “O futuro desses povos não depende deles, mas das nossas decisões.” Uma afirmação poderosa e absolutamente atual diante das discussões em torno do Marco Temporal e dos rumos que o Brasil insiste em testar.
Depois daquele jantar, reencontrei Sydney em circunstâncias completamente diferentes: na despedida da nossa querida Rosita.
Ali, em silêncio, compreendi que algumas pessoas atravessam mundos distintos com a mesma elegância. Rosita transitou entre palácios e florestas, entre a diplomacia e a vida simples, unindo universos que raramente se encontram. Sydney, por sua vez, segue sendo uma lembrança viva de que coragem também pode ser feita de escuta, e que defender o outro é, no fundo, defender o futuro de todos nós.


