Reforma ou revogação (por Cristovam Buarque)

Os partidos que apoiam Lula caem no negacionismo ao exigirem que ele, se eleito, revogue a reforma trabalhista

atualizado

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Fábio Vieira/Metrópoles
Em São Paulo, PSB oficializa nome de Alckmin como vice de Lula
1 de 1 Em São Paulo, PSB oficializa nome de Alckmin como vice de Lula - Foto: Fábio Vieira/Metrópoles

Há três anos somos governados por um negacionista, cuja cabeça é orientada por crenças do passado. Este espírito revogatório da realidade exige a unidade dos democratas para obterem os votos necessários e impedir sua reeleição. Tudo indica que o caminho para isto é o voto em Lula.

Mas faltando cinco meses para a eleição, muitos eleitores começam a temer que Lula traga também um espírito negacionista, tentando revogar a realidade, com base em crenças diferentes do Bolsonaro, mesmo assim crenças baseadas em ideologias que negam a realidade onde funciona a economia contemporânea de qualquer país. A visão de líderes próximos a Lula assustam aos que não querem mais governos negacionistas, assustam ainda mais ao perceber-se o risco de que por isto ele perca votos e milhões de antibolsonaristas optem pelo voto nulo, em consequência reelegendo Bolsonaro.

Não perceber as mudanças que acontecem no mundo é uma forma de negacionismo tão grave quanto dizer que a Terra é plana. A Terra não é apenas redonda, ela ficou global: em sua economia e sociedade, dividida por uma cortina de ouro que separa pobres de ricos, mas global. Negar a globalização é como negar a contaminação por vírus; negar as novas tecnologias e suas consequências sobre as relações entre capital e trabalho é como negar o papel das vacinas; não perceber os limites fiscais é uma forma de negacionismo científico.

Os partidos que apoiam Lula caem no negacionismo ao exigirem que ele, se eleito, revogue a reforma trabalhista, a PEC do Teto, a reforma do ensino médio e da Previdência. É negacionismo diante da realidade do mundo atual e reacionarismo diante da marcha do progresso. Um governo progressista deve reformar as reformas, aprimora-las, fazê-las mais progressistas. Mas revoga-las é negar a realidade, é imaginar que a crise civilizatoria é uma gripezinha da sociedade, e recusar as vacinas que a economia contemporânea precisa, sob a forma de reformas e até revoluções.

O mais grave é que ao negar a realidade, o PT e outros partidos empurram a candidatura de Lula para o isolamento que pode custar sua eleição e condenar o Brasil a, pelo menos, mais quatro anos de Bolsonaro.

O negacionismo de Bolsonaro custou algumas centenas de milhares de mortes, o negacionismo da esquerda reacionária e nostálgica pode custar a perda da sintonia do Brasil com a realidade socioeconômica, ou custar ao Brasil a continuação do negacionismo de Bolsonaro. Lula precisa perceber que o progresso sempre exige reformas, que o marco legal vigente vem de uma Era Sócio-Econômica Anterior e que serviram pouco para incluir dezenas de milhões de pobres excluídos; mas a garantir direitos a parcelas já incluídas. No lugar do anti-reformismo, deve se comprometer com as reformas que os últimos governos conservadores não fizeram: radical reforma politica e eleitoral; fim de privilégios, mordomias e subsidios improdutivos e concentradores social e regionalmente; zerar os gastos secretos e o fundo partidário; reduzir substancialmente o custo de campanhas; reforma para quebrar o círculo vicioso da desigualdade social, decorrente da desigualdade como a qualidade da educação de base é oferecida conforme a renda e o endereço da criança.

No lugar de um governo revogatório voltado ao passado, Lula precisa ter proposta reformista olhando para o futuro. Sem visão para frente ele governará reacionariamente ou nem governe, por perder a eleição e deixar o Brasil condenado ao abismo. Melhor o atraso do que o abismo, mas o Brasil tem direito a querer mais do Lula: reformas, não revogação.

 

Cristovam Buarque foi senador, ministro e governador

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