Quem fiscaliza o fiscal? (por Roberto Caminha Filho)

“Se algo está errado e continua dando errado, isso dará errado”

atualizado

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Daniel Ferreira/Metrópoles
Mastro da Bandeira na Praça dos Três Poderes próximo ao Congresso nacional - Metrópoels
1 de 1 Mastro da Bandeira na Praça dos Três Poderes próximo ao Congresso nacional - Metrópoels - Foto: Daniel Ferreira/Metrópoles

O meu Brasil brasileiro vive um momento curioso e perigosamente “engraçalhado”. Nunca se falou tanto em democracia, justiça e instituições. E, ao mesmo tempo, nunca tanta gente humilde desconfiou tanto delas. É como aquela banquinha de croquetes que vive lotada, mas nós não sabemos exatamente o motivo. Ora, por que, Gajo? Diria o Fernandinho, o genial e culto portuga da nossa turma.

A verdade é que o brasileirinho começou a perceber algo incômodo: as instituições, que deveriam ser o alicerce da República, estão parecendo mais um condomínio sem síndico, ou pior, com síndico que quer abusar do horário da piscina, misturar os caixas, decidir quem entra no elevador e quem pode criar gatos, cachorros e passarinhos…fora ele.

E é aí que entra a pergunta malandra que vale mais que a caneta do Trump: Quem fiscaliza o fiscal?

Durante décadas, acreditamos, e até com muito lirismo, que o sistema funcionaria, sempre, como o inoxidável Rolex, o relógio suíço: cada poder no seu quadrado, cada autoridade dentro do seu limite. O executivo executa, o legislativo legisla, o judiciário julga. Bonito no papel, elegante nos livros… e cada vez mais raro na prática, nos meios de comunicação, no Instagram e no Facebook.

Hoje, o que se vê é uma mistura institucional digna de escola de samba: todo mundo querendo puxar o enredo, cada ala com seu próprio ritmo, e o mestre-sala tentando dançar com três bandeiras ao mesmo tempo.

O problema não é só político. É econômico. Como bem ensinava o professor Jeferson Peres, não existe crescimento sustentável sem previsibilidade com credibilidade. E previsibilidade com credibilidade depende de regras claras e, principalmente, respeitadas.

Quando as instituições começam a dar sinais contraditórios, o investidor faz o quê? Voa. Onde não há credibilidade, o dinheiro não encosta. Há crescimento em Cuba? Existe na Venezuela?

Sem confiança institucional, não há investimento. Sem investimento, não há crescimento. E sem crescimento, sobram os discursos vazios.

Roberto Campos, com a elegância de quem enxergava décadas à frente, já avisava: “A insegurança jurídica é o imposto mais alto de todos.” E ele estava certo. Porque esse imposto não aparece no boleto — mas aparece no preço de tudo: no crédito mais caro, no dólar mais alto, no emprego que desaparece.

E o cidadão comum? Esse assiste a tudo como quem vê novela repetida. Já sabe o final, mas continua acompanhando — talvez por falta de opção, talvez por esperança de um final diferente.

O jovem, cheio de energia, começa a desconfiar. O mais velho, calejado, apenas suspira: “Já vi esse filme”. E viu mesmo. O Brasil tem o talento raro de reinventar e multiplicar os seus próprios erros com uma criatividade impressionante.

Mas há algo novo no ar — e não é exatamente o que queremos de melhor. A desconfiança deixou de ser sussurro de bastidor e virou conversa de mesa de bar, de grupo de família, de fila de banco. Quando o cidadão comum começa a questionar as instituições, não por rebeldia, mas por cansaço.

– M’nino, só quando padres, evangélicos, estudantes e militares começarem a se pronunciar, teremos o sinal de que a coisa passou do ponto – palavras do Fernandinho para as manifestações.

E aqui vai a ironia final, digna do Fernandinho: nunca tivemos tantas regras, tantos órgãos de controle, tantas instâncias e, ainda assim, a sensação geral é de descontrole.

É como ter dez seguranças numa festa — e mesmo assim ninguém saber quem deixou a porta aberta. Precisamos, antes de tudo, responder à pergunta que persiste:

Quem fiscaliza o fiscal?

Porque, se essa resposta não vier — clara, objetiva e confiável — o país continuará nesse curioso estado de normalidade aparente e desordem silenciosa.

E aí, meu amigo, não será necessário nenhum escândalo novo. Quem vê e escuta as classes menos favorecidas em sucessivas pesquisas qualitativas, sente o desânimo dos chefes de famílias e donas de casa para a escolha dos velhos e novos candidatos que já se apresentam.  Há uma completa falta de credibilidade nos velhos políticos e um desânimo muito grande em ouvir as propostas vindas dos novos.

Pesquisa Qualitativa ou Grupos Focais são pessoas de várias classes sociais, reunidas em uma sala com um mediador perguntando sobre o cotidiano de um povo e recebendo as respostas para passar a média das opiniões, para um dirigente ou político em campanha.

Existe um ponto de convergência entre todos os cidadãos participantes dos Grupos Focais e que merece um estudo mais aprofundado das nossas autoridades: são todos desempregados, muitos sendo ou querendo ser diaristas e a grande maioria sem aceitar emprego e trabalho com carteira assinada para continuar recebendo as Bolsas do Governo.

E aí esbarramos na “engraçalhada” Lei de Murphy:

“Se algo está errado e continua dando errado, isso dará errado”

Exemplos práticos: O semáforo sempre fica vermelho quando você está atrasado. Basta esquecer o guarda-chuva para cair o temporal.

Roberto Caminha Filho, economista, está vendo a bolacha sempre cair com o lado da manteiga no chão sujo.

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