Quando o risco não cabe no seguro (por Mariana Caminha)

Em 1994, o mercado financeiro fez algo que, à época, parecia quase experimental: criou o primeiro catastrophe bond (cat bond)

atualizado

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Ramiro Sanchez/Getty Images
Vista aérea RS - Estado de calamidade pública após enchentes causadas pela forte chuva atingiram o estado brasileiro do Rio Grande do Sul RS - Metrópoles
1 de 1 Vista aérea RS - Estado de calamidade pública após enchentes causadas pela forte chuva atingiram o estado brasileiro do Rio Grande do Sul RS - Metrópoles - Foto: Ramiro Sanchez/Getty Images

A ideia nasceu no rastro do furacão Andrew, que havia exposto os limites do sistema tradicional de seguros. Quando o risco se torna grande demais, alguém precisa carregá-lo. E, naquele momento, ficou claro que as seguradoras, sozinhas, não davam conta do recado.

Três décadas depois, o experimento ganhou relevância e tração.

Nos últimos anos, o mercado financeiro tem mostrado uma criatividade quase ilimitada quando o assunto é clima.

Green bonds, sustainability bonds, transition bonds, blue bonds. Cada um com sua promessa, sua metodologia, seu recorte específico da transição. Instrumentos que nasceram para financiar soluções – energia limpa, infraestrutura resiliente, proteção dos oceanos. São meios de direcionar capital, organizar prioridades, e, claro, oferecer diversificação para os portifólios de investimentos.

Um texto recente do World Economic Forum chama atenção para o papel dos catastrophe bonds em um cenário em que eventos climáticos são cada vez mais extremos e frequentes.

Funciona assim: investidores aceitam carregar o risco de um desastre – um furacão, um incêndio florestal, uma enchente. Em troca, recebem retornos mais altos que investimentos tradicionais. Se o desastre não acontece, ganham. Se acontece, perdem parte do investimento – e o dinheiro segue para cobrir os prejuízos dos eventos climáticos.

É uma engenharia sofisticada. E, em muitos casos, necessária.

Em 2025, segundo o Fórum Econômico Mundial, perdas seguradas por desastres naturais ultrapassaram US$ 100 bilhões pelo sexto ano consecutivo.

Em outras palavras, eventos extremos deixaram de ser exceção. Tornaram-se padrão. E o mercado reagiu como sabe.

Mas, apesar de toda essa sofisticação, menos de 60% das perdas relacionadas ao clima no mundo estão hoje cobertas por seguros. Ou seja: há uma parcela crescente do risco que simplesmente não está sendo absorvida por ninguém.

Um “vazio de proteção”. E, como quase sempre, esse vazio não é neutro. Ele tem geografia. Tem renda. Tem história.

Os países mais vulneráveis – e as populações dentro deles – são também aqueles com menor acesso a seguros, a dados e a instrumentos financeiros. São os que mais sofrem com eventos extremos – e os que menos conseguem transferir esse risco.

Enquanto isso, nos centros financeiros, seguimos desenvolvendo estruturas cada vez mais sofisticadas para redistribuir perdas.

É um paradoxo.

De um lado, um mercado que evolui rapidamente para “precificar” o imprevisível. Do outro, uma realidade em que o imprevisível continua recaindo sobre quem menos pode absorvê-lo.

Os cat bonds são, de certa forma, um retrato desse momento. Mostram o quanto avançamos – e, ao mesmo tempo, o quanto ainda falta, pois eles não resolvem o problema do risco climático. Apenas respondem a ele.

Depois de anos desenvolvendo instrumentos para financiar soluções, ainda dependemos de mecanismos sofisticados para lidar com as consequências.

Daí a importância de falarmos sobre instrumentos ligados à resiliência – essa capacidade de se adaptar, de reduzir vulnerabilidades antes que elas se transformem em custo.

Hoje, sabemos que não se trata apenas de financiar desastres com mais inteligência,
mas de investir, com a mesma sofisticação, naquilo que evita que eles aconteçam – ou, ao menos, que deixem de ser tão devastadores.

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