Quando a camisa cobre tudo (Por Jorge Valdano)
Nossa consciência sobre questões como o racismo aumentou nos últimos anos, mas, mais uma vez, o futebol prova que chegou atrasado à festa
atualizado
Compartilhar notícia

Esta é a semana em que o racismo transbordou das arquibancadas para o campo. Embora um jogador seja um torcedor que por acaso está jogando, os dois ambientes não são iguais. As arquibancadas são um terreno fértil para a perda de controle: os excessos se alastram, os insultos são tolerados e o anonimato é explorado. Mas em campo, as câmeras estão apontadas para você, seu adversário é um companheiro de equipe e existe uma suposta responsabilidade social inerente a estar sob escrutínio.
A questão é que um suposto insulto racista (não tenho dúvidas, mas também não tenho provas) escondido atrás de uma camisa expôs todas as contradições do futebol. Todo o time do Benfica se uniu em torno da camisa de Prestianni simplesmente porque ele é um dos seus. Do técnico ao presidente, todos agiram movidos por um senso de pertencimento: pensaram como a tribo à qual pertencem, defendendo sua identidade e seus interesses. Não tenho nenhum interesse pessoal nessa história, mas acho difícil escrever sobre ela por puro orgulho argentino. Prestianni é um dos meus por causa do pior tipo de cumplicidade: o nacionalismo. Esse é o gatilho doentio que o futebol costuma usar, afinal, é a nossa pátria.
E se não fosse o futebol, mas os seres humanos que, naquele incidente, revelaram sua verdadeira natureza? Gustave Le Bon, em seu livro essencial “A Multidão: Um Estudo da Mente Popular”, fala de como as pessoas descem “vários degraus na escada da civilização” em situações de emergência. Mais recentemente, Rutger Bregman o contradisse em seu igualmente memorável livro “Merecedor de Ser Humano”, com evidências irrefutáveis do espírito generoso e compassivo da humanidade. E se ambos estivessem certos? Gosto de dizer que alguém que vai ao cinema é mais inteligente do que alguém que vai a uma partida de futebol. Mesmo que sejam a mesma pessoa. Para concordar com Le Bon, basta ir a um jogo e lotar as arquibancadas com milhares de pessoas que amam seu time e se entregam a uma emoção que facilmente se descontrola. Para entender Bregman, basta acompanhar uma dessas pessoas fora do estádio e vê-las agir em seu dia a dia, onde a razão modera os excessos da paixão. Somos feitos dessas duas matérias.
Nossa sensibilidade a questões como o racismo aumentou nos últimos anos, mas, mais uma vez, o futebol demonstra que chega atrasado a todas as revoluções.
O protocolo antirracismo foi ativado durante a partida, um gesto de boa vontade que dificilmente resolverá a questão por completo. A UEFA abriu uma investigação no dia seguinte, mas uma investigação não silenciará ninguém. Felizmente, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, expressou sua tristeza e choque e aproveitou a oportunidade para proferir um discurso impactante: “Não ao racismo! Não a qualquer forma de discriminação!” Diante dessa demonstração de responsabilidade cívica, é reconfortante saber que Infantino não concederá a Prestianni um prêmio da paz.
O Benfica perdeu a oportunidade de entrar para a história pela sua decência ao não reconhecer o erro do seu jogador e ao não ajudar na sua formação e na de todos os jogadores de futebol.
Sempre que o futebol opta por proteger seus próprios interesses em detrimento de valores, ele fica para trás em relação à sociedade que representa. A UEFA pode impor sanções, mas a verdadeira solução não é legal, e sim cultural. Quando um clube priorizar a derrota em vez da decência, o futebol dará um grande passo à frente. Até lá, continuaremos a pensar com a camisa no corpo… ou com a camisa cobrindo a boca.
(Transcrito do El País)


