Prometem o céu, entregam o inferno (por Mary Zaidan)
Como a eleição de 2026 se configura como todos versus Lula
atualizado
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Boa parte do prometido pelos candidatos à Presidência é puro populismo e nem mesmo está na alçada do chefe do Executivo
Primeiro pré-candidato a presidente a lançar diretrizes de um programa de governo, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) engordou a já conhecida tendência de soluções mágicas para problemas complexos, usual entre políticos à caça de votos. Com um agravante que também não é incomum: promessas de lotes no céu que não serão entregues. Boa parte delas é puro populismo e nem mesmo está na alçada do chefe do Executivo.
Assim como os demais candidatos à direita – Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) -, Zema foi mais um a apedrejar o Supremo Tribunal Federal, o alvo da vez. Disse que se eleito vai acabar com a “farra dos intocáveis”, algo que lembra aquele caçador de marajás das Alagoas, cassado em 1992, hoje aferrado a uma tornozeleira eletrônica.
O ex-governador mineiro quer anistiar golpistas e combater o crime com mais tempo de cadeia para bandido. As mudanças que promete no Judiciário começariam pelo STF, com idade mínima de 60 anos para ingresso na Corte e mandato fixo de 15 anos.
Sem discutir o mérito, cabe ressaltar que nada disso é competência do presidente da República, que, no máximo, pode encaminhar propostas ao Congresso Nacional e lutar por sua aprovação. Alguns casos, como a reestruturação do Judiciário, dependem de alteração na Constituição, que exige maioria de dois terços do Parlamento em duas votações.
Outro exemplo: Zema se comprometeu com a redução da maioridade penal, mesmo ciente de que pouco ou quase nada pode fazer por ela. O tema está pendurado no Congresso desde 1993. Portanto, boa parte do discurso não passa de papo para tentar engambelar o eleitor.
O ex-governador não está sozinho. Embora ainda não tenham apresentado pontos de programas de governo, o filho do ex, Caiado e Renan já rodaram um trailer.
Mesmo na contramão da maioria dos brasileiros, que repudia o perdão para golpistas, eles defendem a anistia aos condenados, incluindo a soltura de Jair Bolsonaro, dos demais militares e de todos que participaram dos atos antidemocráticos de 8 de Janeiro de 2023. Pretendem também endurecer no combate ao crime, e namoram com a ideia defendida pelo presidente Donald Trump de enquadrar facções como grupos terroristas. Um risco para a soberania brasileira, visto que o presidente norte-americano utiliza a nomenclatura para justificar intervenções em outros países.
No ardente tema Segurança Pública, Renan chega a preconizar a pena de morte. Mas é Caiado quem apresenta a maior incongruência na área. Embora tenha sido o crítico mais feroz quanto à intervenção do Governo Federal no combate ao crime, diz que, se eleito, pretende expandir a cartilha aplicada em Goiás, estado governado por ele por quase oito anos. Isto é, como presidente imagina fazer o que hoje condena.
Como a eleição de 2026 se configura como todos versus Lula, a proximidade do discurso dos oposicionistas facilita a união para um eventual segundo turno – e com vantagens. O problema hoje para eles é o eleitor conseguir diferenciá-los. Todos estão no mesmo bolo, com defesas quase idênticas para o combate ao crime, moralização da Justiça, punições ao STF, anistia, privatização, ajuste fiscal… Flávio prega igual a Caiado, que quer o mesmo de Zema, que até no chamamento pela “chance de prosperidade” copia Renan. Falam para agradar a plateia e pronto.
Ao incumbente é mais difícil vender ilusões. Embora com números consistentes para mostrar no emprego, salário e renda, Lula tem uma picanha engasgada, inflação dos alimentos e a consequente avaliação negativa de seu governo. Parte de suas promessas se perdeu na posição minoritária no Congresso, com o qual teve de partilhar a paternidade das poucas vitórias, cenário que deve se repetir caso a jornada de trabalho 5×2 seja aprovada.
Tudo remete à obviedade da importância das eleições para deputados e senadores. São eles que podem dar consequência ou não às propostas do eleito. Mas isso não confere aos candidatos o direito a promessas vazias, populescas, feitas sob medida para iludir. Longe de se importarem com o lastro da pregação, continuam a ofertar o inalcançável paraíso e, não raro, entregar o inferno.
Mary Zaidan é jornalista


