Por trás da crise com o Supremo (por Mary Zaidan) 

Decisões do STF em pautas de costumes dão fôlego para a direita manter a tropa unida no pós-Bolsonaro

atualizado

Compartilhar notícia

Daniel Ferreira / Metrópoles
STF réus PGR - Metrópoles
1 de 1 STF réus PGR - Metrópoles - Foto: Daniel Ferreira / Metrópoles

Muito se fala – e muito ainda vai se dizer – de crises entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, contendas que teriam origem na composição mais conservadora do Parlamento versus o progressismo da Corte maior. É mais do que isso. Além dos interesses econômicos, óbvios no caso do marco temporal para delimitação de terras indígenas, por trás do brio ferido da Câmara e do Senado com decisões recentes do STF está a ávida corrida da direita em dar fôlego às pautas de costumes que, com o ex Jair Bolsonaro abatido, teriam o condão de manter a tropa unida.

É sabido, e senador algum tem o direito de desconhecer, que não se altera a Constituição com uma lei. Ainda assim, ato contínuo à decisão do STF sobre a inconstitucionalidade do marco temporal, a maioria dos senadores correu para aprovar a lei fixando outubro de 1988 como data limite para demarcação de áreas indígenas. Mesmo cientes de que a lei não vai vingar, fizeram a parte deles junto ao poderoso lobby do agro e de mineradoras. Uns e outros, dizem, embolsaram a sua parte.

Erroneamente chamada de pauta de costumes, pois trata de direitos de minorias, essa agenda segue outra lógica. Deputados e senadores progressistas têm, historicamente, empurrado com a barriga temas como união homoafetiva e aborto, temerosos de serem rechaçados por uma visão mais conservadora da sociedade. O extremismo de direita, que conseguiu crescer à sombra de Bolsonaro e precisa juntar os cacos, aproveita a brecha.

A tentativa é redirecionar o foco. Seria como se o “direito do nascituro” pudesse esconder as jóias das arábias; o brado pelo “direito à vida”, mesmo com a morte de mães que abortam clandestinamente, apagasse os mortos pela Covid-19 e a orientação para não tomar vacinas; ou o fim dos direitos civis de casais homoafetivos fosse capaz de diminuir o peso dos atos golpistas.

O debate sobre a união homoafetiva, tentando reverter direitos assegurados pelo Supremo desde 2011 à comunidade LGBTQIA +, já havia sido aberto pela ala mais conservadora da Câmara quando a punição ao aborto voltou a ser debatida no STF. O voto pela descriminalização proferido pela ministra Rosa Weber, dias antes de sua aposentadoria compulsória, funcionou como um tônico. A partir dele, a direita mais aguerrida conseguiu revitalizar movimentos anti-aborto, tendo a bancada evangélica como base de apoio.

Organizado, esse mesmo grupo há meses trabalha para eleger a maioria dos conselheiros tutelares que serão escolhidos neste domingo, por voto direto. Esses conselhos são responsáveis por garantir direitos de crianças e adolescentes previstos no ECA, e obrigatórios em todos os municípios do país, portanto, capilares. O que poucos sabem – e ao que parece não há intenção de propagandear – é que se trata de eleição aberta a todos os brasileiros habilitados a votar.

É legítimo que a direita, assim como qualquer corrente de pensamento, tente ampliar espaços. O problema são os métodos, não raro embasados na mentira. O senador Sérgio Moro (União Brasil-PR) chegou a escrever em uma rede social que o governo Lula estaria impondo “banheiros unissex para todas as escolas públicas do país, sem Congresso, sem debate com sociedade, sem consulta a Estados e Municípios, sem perguntar aos pais”. Um irresponsável disparate.

Na Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família da Câmara, o debate do projeto que pretende acabar com os direitos de casais homoafetivos se transformou em acusações a opções sexuais, com palavreado chulo. “Homem nasce como homem. Com binga, portanto, com pinto, com pênis. Mulher nasce com sua cocota, sua tcheca, portanto, sua vagina. Homem, mesmo cortando a binga, não vai ser mulher. Mulher cortando a cocota, se for possível, não será homem. Todo mundo sabe”, disse o pastor Isidório (Avante-BA) antes de se definir como “homem de Deus”.

O desarme aos extremistas de direita veio da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). Com um discurso vigoroso ela rechaçou a “ficção de guerra religiosa”. Disse vir de uma família evangélica e criticou os “falsos profetas” que usam o nome de Deus – “um malabarismo de cinismo para mascarar o ódio puro, a intolerância, o preconceito”.

A reação feroz da ala conservadora do Parlamento a decisões da Justiça não é rixa entre Congresso e STF, mas oportunidade política para ocupar corações e mentes do eleitor ao custo de limar direitos de minorias. Como enfatizou a professora Eloísa Machado de Almeida, coordenadora do Supremo em Pauta da FGV, “a ideia de que direitos de minorias e garantias democráticas não podem ficar à mercê de maiorias eleitas é preceito básico da Constituição e da lógica, assim como o papel do Supremo em preservar esses direitos”. Por mais que uns e outros esperneiem, esse também é o papel da Suprema Corte.

 

Mary Zaidan é jornalista 

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?