Perus, panetones e palanques (por Roberto Caminha Filho)

No Brasil até o passado é incerto, imagine o Natal

atualizado

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Papai Noel
1 de 1 Papai Noel - Foto: Divulgação

O mês de dezembro é aquele em que o Brasil decide misturar ceia com campanha eleitoral, inflação com sobremesa e promessa política com farofa de fruta cristalizada. O Natal brasileiro parece que até desmoralizou a cruel Lei Magnitsky. O país entra no clima de Natal, mas Brasília prefere um clima de pré-campanha permanente. Enquanto os mortais compram perus, nossos líderes compram narrativas. E o mercado… bem, o mercado observa tudo com a serenidade de quem já sabe que o país engorda no panetone e emagrece no PIB (tudo que se produz em um país, no determinado tempo). E a bariátrica ou o celestial Mounjaro nunca chegarão.

Do lado econômico, o governo tenta vender otimismo como se fosse promoção de fim de ano: “o pior já passou”, “o crescimento está chegando”, “o lado fiscal está sob controle”. Tudo isso embalado em laço dourado com vermelho e purpurina verbal. Mas, como lembraria Mário Henrique Simonsen com seu humor matemático: Não existe ceia grátis. Quando a despesa cresce mais rápido que a receita, é a Dona Inflação que aparece como convidada antipática — aquela tia do pavê com suco de tâmaras, que todo mundo tenta evitar, mas sempre chega e ocupa o melhor sofá.

Os números do ano mostram um PIB que subiu menos do que o preço do Panetone Premium, desses com embalagem que parece cofre de banco. Crescemos pouco, gastamos demais e seguimos esperando que juros baixos brotem como “espírito natalino”. Roberto Campos já dizia que “o Brasil não perde a oportunidade de perder uma oportunidade” — frase que se aplica perfeitamente à nossa habilidade de prometer reformas como quem promete dieta para janeiro: aquela que só começa quando o R.O. (Resto de Ontem), acaba.

Mas se a economia já deu seu show, a política entra no palco para o segundo ato. Os partidos começaram mais cedo o seu “amigo oculto” eleitoral de 2026. Todos abraçam a todos, ninguém confia em ninguém, e cada líder tenta disfarçar a crise interna com sorriso de foto oficial. É bonito de ver, se você gostar de teatro. Em alguns estados, os bastidores já fervem mais que os fornos do peru. Governadores e prefeitos antecipam empréstimos internacionais, para os eleitores pagarem, articulações com vereadores, deputados e prefeitos, senadores afinam discursos e pré-candidatos tentam evitar declarações que queimem como rabanada no óleo quente.

Brasília, por sua vez, descobriu um novo esporte: testar slogans de campanha enquanto ainda monta a árvore de Natal. É o “palanque de verão”, uma modalidade em que ninguém admite estar competindo, mas todos aquecem. A lógica é simples: se o eleitor lembrar do nome em dezembro, talvez não esqueça em outubro próximo.

E no meio da ceia política ainda há a geopolítica, servida com molho picante e mistério. A tensão entre Estados Unidos e Venezuela, com o avião do Joesley pelo meio, reaparece como aquele prato desconhecido da ceia que todo mundo olha com desconfiança. Para o Brasil, o risco é claro: qualquer soluço no Caribe vira tosse braba no preço do combustível — e nós já conhecemos esse script. Mas aqui cabe a genialidade de Roberto Campos, que, nunca, jamais e em tempo algum, perderia a oportunidade de impor o seu sarcasmo:
“Geopolítica é a geobaboseira dos geobabacas.”

Segundo o Google, e para melhor explicação, Geopolítica decifra como o “onde” (geografia) afeta o “como” (poder e política) nas relações internacionais.

A frase cai como uma luva sobre a enxurrada de teorias grandiosas que tentam explicar o que, no fundo, é um velho jogo de preço, poder e petróleo. Campos sabia que muita gente prefere mapas e discursos pomposos a encarar as contas reais do país.

No final, o Brasil se prepara para 2026 como se prepara para a ceia: muita expectativa, pouca certeza e a esperança de que, desta vez, tudo dê certo. A política arruma seus mais afiados talheres, a economia arruma suas mais doces desculpas e o eleitor tenta arrumar uma salvadora bolsa-voto com muita paciência. E os cinturões abrindo novos furos.

Se dezembro nos ensina algo, é que o país vive eternamente entre o peru que não assa, o panetone que encarece e os palanques de aço, para muito político falar, e não cair, que nunca desmontam. Mas seguimos acreditando — talvez por teimosia, talvez por fé — que um dia teremos um Natal em que a conta fecha, o PIB cresce e os discursos serão só músicas suaves. Até lá, brindemos! Porque, como diria Roberto Campos:

No Brasil até o passado é incerto — imagine o Natal.

Roberto Caminha Filho, economista, segue acreditando no Brasil e no Flamengo, quando não precisam de passaporte.

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