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Blog do Noblat - 22 anos

Pátria distraída (por Marcos Magalhães)

Lula quis saber de Flávio como seria a relação especial com os Estados Unidos. Flávio mudou de assunto

20/10/2026 11:05
Material cedido pela Band
Flávio Bolsonaro e Lula no debate da Band

A língua ferina de Flávio Bolsonaro, no primeiro debate presidencial, não abre espaço para a poesia. Mas o silêncio que adotava diante de perguntas incômodas era como o oposto de um antigo samba que tudo dizia mesmo sem nada falar.

Era o início de 1984, um ano antes da transição para o primeiro governo civil depois de 20 anos da ditadura tão elogiada pelo senador e por seu pai Jair, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado.

“Vai passar”, de Chico Buarque, ecoava em todo o país. Vai passar na avenida um samba popular, como dizia a canção. Assim como iria passar o longo período de autoritarismo, cuja memória andava – e anda – desbotada em nossas novas gerações.

“Dormia”, nessa página infeliz da história, “a nossa pátria-mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.

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Foram muitas transações, como a história já nos ensinou. Na canção a linguagem era simbólica. Mas os grandes negócios estavam ali. Desde depósitos em contas no exterior ao estímulo de grandes projetos internacionais que deixaram rastros de destruição na Amazônia.

Naquele tempo prosperaram ideias como as de plantar capim para gado onde antes havia floresta nativa. Ou plantar eucalipto na terra aberta por desmatamento.

Agora os interesses são mais sofisticados. A economia digital precisa de novos minérios críticos para fabricar aparelhos eletrônicos de última geração. Assim como as forças armadas do mundo buscam matérias-primas para suas mais recentes armas.

E essas matérias-primas incluem as terras raras, cujas maiores reservas do mundo estão na China. As reservas brasileiras vêm logo atrás. E países como os Estados Unidos estão de olho no subsolo brasileiro.

Durante evento nos Estados Unidos, falando em inglês, Bolsonaro filho já havia prometido portas abertas. O Brasil, a seu ver, poderia ser “a solução para a América”.

Washington gostou e anotou. Com o senador no Palácio do Planalto seria mais fácil negociar do que com o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que defende o beneficiamento e a industrialização dos minérios no Brasil.

Na verdade, as terras raras brasileiras não interessam aos americanos apenas sob o ponto de vista da geopolítica. Também como negócio mesmo. Um negócio que pode vir a beneficiar integrantes das famílias do presidente e do vice-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e J.D. Vance.

Pois no debate presidencial Lula quis saber de Flávio como seria a relação especial com os Estados Unidos prometida pelo senador. E se ele pretendia mesmo entregar aos americanos o controle de jazidas de minerais críticos e terras raras. Silêncio.

Na hora Flávio mudou de assunto, assim como fez quando Lula lhe perguntou por que havia votado contra a extensão da licença maternidade, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ou quando lhe propôs abrir sigilos fiscal e digital.

O senador não quis falar do assunto. Mas este será um dos principais temas logo no início de um possível governo seu.

Um acordo com os Estados Unidos sobre as reservas minerais serviria como uma espécie de passaporte para o clube de aliados preferenciais de Washington. Ou como um novo modelo de subtração da pátria distraída.

Os fãs de Trump são tão ruidosos, no Brasil, que levaram à avenida Paulista, durante manifestação em apoio ao candidato da direita, um míssil inflável onde se lia um pedido para que o presidente americano bombardeasse o Brasil.

Flávio, é claro, acusou “agentes infiltrados” de levar o míssil à avenida. Quem sabe fosse apenas mais um adereço na versão bolsonarista do samba popular. Tudo isso também vai passar?

As urnas do próximo domingo dirão. Se há 40 anos a pátria-mãe dormia, diante de tenebrosas transações, ela agora precisa despertar.

Para encarar de frente os riscos à nossa soberania – política, econômica e tecnológica – e à própria democracia, que as gerações anteriores tanto lutaram para conquistar.