Pandemia acelera mudanças na América Latina (por Marcos Magalhães)

A esquerda brasileira precisará decidir se apoia ou não o autoritarismo do regime cubano

atualizado 14/07/2021 5:06

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Desde que chegaram a esse enorme e desigual subcontinente, os vírus que nos trouxeram os cruéis efeitos da pandemia também parecem haver tomado para si as missões de ampliar descontentamentos e acelerar mudanças na América Latina.

Após meses de reclusão, multidões foram às ruas nas maiores cidades brasileiras em manifestações por mais vacinas e a favor da democracia. O Peru elegeu presidente um professor de esquerda vindo do interior – cuja vitória ainda é contestada pela direita fujimorista.

O Chile segue a mesma tendência. Já começou seus trabalhos uma Assembleia Constituinte composta, em sua maioria, por independentes e representantes de uma nova esquerda, diferente daquela que participou dos governos da Concertación, após a queda de Pinochet. E a capital, Santiago, tem pela primeira vez uma prefeita do Partido Comunista.

Agora, em um aparente sinal contrário às tendências regionais, milhares de manifestantes saíram às ruas de Havana e de outras cidades de Cuba para protestar contra o governo chefiado há 62 anos exatamente pelo Partido Comunista. Pediam vacinas, comida e liberdade.

Em cada país da região os protestos foram acompanhados por diferentes canções entoadas pelas multidões nas ruas. Em Havana a trilha sonora foi “Pátria e vida”, um rap que pegou irônica carona em um dos principais refrões do regime, “Pátria ou morte”.

“Chega de mentiras!”, diz a canção, cujo vídeo está disponível na internet. “Meu povo exige liberdade, não mais doutrinas. Já não gritamos pátria ou morte, mas pátria e vida”.

Um duro golpe à imagem do governo cubano, que tem entre suas principais vitrines – com justas razões – o sistema de saúde pública do país. Desde o início da pandemia, já foram registradas 238.491 infecções e 1537 mortes. A população do país é de 11,3 milhões de habitantes.

Foram, provavelmente, os maiores protestos de rua em Cuba desde a Revolução de 1959. A insatisfação política está diretamente ligada à crise econômica. A sociedade cubana enfrenta grandes dificuldades de abastecimento, especialmente de alimentos.

A reação aos protestos foi imediata. O presidente Miguel Diaz-Canél acusou os Estados Unidos de estar por trás das manifestações e chamou às ruas os simpatizantes do regime.

“Estamos convocando todos os revolucionários do país, todos os comunistas, a tomarem as ruas e irem aos lugares onde essas provocações acontecerão”, disse Canél em mensagem transmitida a todo o país pelo rádio e pela televisão.

Crise

As manifestações ganharam manchetes internacionais por seu quase ineditismo em um país politicamente fechado como Cuba. Mas já ocorreram outras semelhantes na região ao longo dos últimos meses. Basta lembrar as multidões que foram às ruas na Colômbia e no Chile.

No Peru, o movimento que levou à vitória Pedro Castillo está ligado à sensação de exclusão de populações do interior e à extrema precarização do trabalho em todo o país. Tudo isso potencializado pelos efeitos devastadores da pandemia sobre a economia.

Se a vitória de Castillo ainda depende de uma confirmação oficial, porém, em Cuba a situação pode se tornar ainda mais grave. Díaz-Canél tem emitido sinais de que poderá promover uma repressão em grande escala das manifestações. O que pode incluir prisões e mortes.

Este seria o sonho de consumo de anticomunistas em países como o Brasil. Em um momento de avanço da esquerda nas primeiras pesquisas eleitorais para as eleições do ano que vem, uma atitude dura do regime cubano em relação a seus opositores poderia cair como uma luva na tentativa da extrema direita brasileira de reconquistar simpatizantes.

Logo na manhã de segunda-feira o presidente Jair Bolsonaro aproveitou o momento para provocar a esquerda. “(Os manifestantes em Cuba) foram pedir liberdade”, disse ele a seus apoiadores. “Sabe o que tiveram ontem? Borrachada, pancada e prisão”.

Soa quase irônico ouvir Bolsonaro falar em liberdade, depois de tantas insinuações que tem feito sobre a possibilidade de quebra da ordem democrática aqui mesmo no Brasil. Mas sempre haverá quem se deixe empolgar por suas palavras.

O discurso anticomunista poderá sair fortalecido caso o regime cubano decida mesmo promover uma grande onda de repressão contra os manifestantes. Por mais que Havana atribua a crise econômica no país ao que chama de “bloqueio americano” e que aponte a presença de provocadores externos como causa dos protestos.

Resta saber como se comportará a esquerda do Brasil em relação ao episódio. Logo após as declarações de Díaz-Canél, simpatizantes brasileiros do regime cubano retransmitiram em suas redes sociais as acusações do presidente ao governo dos Estados Unidos.

Assim como no caso de Bolsonaro, pode ser que o gesto ajude a manter coeso o grupo político. Mas será difícil atacar apenas o Tio Sam no caso de se multiplicarem as prisões de dissidentes e até mesmo de se registrarem conflitos nas ruas de Havana.

Como reagirá a esquerda brasileira? Talvez seja uma oportunidade para que ela se descole do aspecto repressivo e antidemocrático do regime cubano. Um aspecto que, a cada dia, se torna mais difícil de contestar.

A esquerda brasileira pode, nesses tempos radicalizados de pandemia, ressaltar conquistas inegáveis de Cuba – um país em desenvolvimento, é bom lembrar – em setores como a educação e a própria saúde. Mas precisará decidir se apoia ou não o autoritarismo do regime.

Buenos Aires

Ao mesmo tempo em que os protestos ocorriam em Havana, as ruas de Buenos Aires estavam cheias – de torcedores enlouquecidos com a conquista da Copa América, no Maracanã. Até aí, seria o esperado. A reação deste lado da fronteira, porém, indica que algo mudou.

Desde que os presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney decidiram estabelecer uma rota de aproximação para os dois países, ainda nos anos 80, Argentina e Brasil deram início a um processo de construção de consensos, que teve como ponto principal a criação do Mercosul.

Discordâncias nunca deixaram de acontecer, mas após cada cúpula do bloco lá estavam sorrindo para as fotos os presidentes dos dois países e seus colegas do Paraguai e do Uruguai. A rivalidade, diziam os líderes argentinos e brasileiros, ficaria apenas no futebol.

Agora, acompanhando esses tempos de mudança, tudo foi diferente. A mais recente reunião de cúpula do Mercosul foi tão conflituosa que terminou sem uma declaração conjunta. Jair Bolsonaro e Alberto Fernández não conseguiram chegar a um mínimo entendimento sobre o grau de abertura do bloco a negociações com outros países e blocos econômicos.

E no futebol? Após a vitória do time de Messi, não houve nenhum quebra-quebra nas ruas do Rio de Janeiro. As camisas amarelas parecem ter ficado associadas aos simpatizantes da extrema direita. E, nas redes sociais, muitos brasileiros parabenizaram os argentinos. Tempos diferentes.

Marcos Magalhães escreve no https://capitalpolitico.com/