Os novos comunistas (por André Gustavo Stumpf)

Vietnã cresceu em média 6% ao ano nas últimas décadas, China é o maior parceiro comercial da América do Sul

atualizado

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Ju Peng
Presidente Xi Jinping da China discursa em sede do Partido Comunista Chinês, de costas para a plateia. Ao fundo, bandeiras vermelhas e o símbolo do comunismo, uma foice com martelo - Metrópoles
1 de 1 Presidente Xi Jinping da China discursa em sede do Partido Comunista Chinês, de costas para a plateia. Ao fundo, bandeiras vermelhas e o símbolo do comunismo, uma foice com martelo - Metrópoles - Foto: Ju Peng

Já não se fazem comunistas como antigamente. O Vietnã, que padeceu nos anos sessenta de uma violenta e agressiva invasão das forças armadas dos Estados Unidos (os norte-americanos chegaram a ter 700 mil soldados no país quando houve o cessar-fogo) venceu a extrema pobreza, ao transitar de economia planificada para a economia de mercado desde 1986. Em janeiro de 2007 ingressou na Organização Mundial do Comércio, o que permitiu a atração de empresas mais competitivas, voltadas para a exportação. E o país cresceu em média 6% ao ano nas últimas décadas. É uma das economias que mais crescem no mundo.

O governo dos Estados Unidos e o do Vietnã restabeleceram relações diplomáticas em 1995. Norte-americanos visitaram o país em missões oficiais e comerciais. Os vietnamitas também se acercaram dos antigos inimigos e rapidamente estabeleceram laços comerciais. Hoje o país consegue atrair capitais antes destinados a China ou países vizinhos. A poderosa indústria de roupas para esportistas desembarcou com força no antigo território de guerra. Hoje em dia camisas, calções e tênis utilizados pelos grandes nomes do esporte são produzidos no Vietnã.

De acordo com Ministério das Finanças até o final do ano de 2013, 6.376 empresas estatais foram reestruturadas. Foram privatizadas 57% delas, dezesseis por cento foram transformadas em sociedades anônimas, seis por cento foram vendidas, enquanto 405 empresas restantes foram reestruturadas de diferentes maneiras. Entre 3.576 empresas que foram reestruturadas, oitenta e cinco por cento têm maior volume de negócios e quase noventa por cento viram seus lucros aumentarem. O resultado é que o país foi em 2020 o 19º maior exportador do mundo (US$ 318,2 bilhões, 1,7% do total mundial). Já nas importações, em 2019, foi o 18º maior importador do mundo: US$ 271,1 bilhões. Números parecidos com os do Brasil, que não passou por nenhuma guerra e tem 213 milhões de habitantes. O Vietnã tem 97 milhões de cidadãos e quase foi varrido do mapa pelo conflito bélico.

Esse é o novo mundo comunista, que inclui China, Vietnã, Cuba e Coreia do Norte. Os dois últimos continuam apegados aos dogmas da guerra fria. Estacionaram no tempo. E se conservam ao largo da economia mundial. Não participam do fluxo de comercio internacional. Os demais países que se denominam comunistas, apenas justificam com o rótulo a existência de ditaduras pavorosas e autoritárias. A China, grande país comunista de partido único e forte controle central, permite liberdade econômica. Há respeito pelas decisões empresariais. O banco Morgan Stanley estima que a China poderá crescer 5,7% em 2023. Isso deverá acarretar aumento de demanda por mercadorias na América do Sul e o Brasil deverá ser favorecido pelo maior apetite comercial chinês.

O comércio com a China cresceu de US$ 12 bilhões, em 2000, ou 0,6% do PIB da América Latina, para US$ 445 bilhões em 2021 ou 8,5% do PIB da região. A China se transformou na maior parceira comercial da América do Sul, enquanto os Estados Unidos mantiveram essa posição apenas para México e América Central. Brasil, Chile e Peru possuem balanças comerciais favoráveis com a China. O comercio Brasil e China é proveitoso para os dois lados. Faltam no Brasil obras de infraestrutura – estradas, portos e serviços públicos, exatamente o que os chineses são capazes de oferecer.

Mais de 70 % da produção de soja brasileira é comprada pelos chineses. Aliás, a safra recorde de mais 300 milhões de toneladas de grãos dá uma medida da importância do agronegócio na economia brasileira. Entre 2002 e 2022 o PIB agrícola do país saltou de US$ 122 bilhões para US$ 500 bilhões, o que é equivalente ao produto interno bruto da Argentina. São números impressionantes. O agronegócio se modernizou e colocou o país em terceiro lugar entre os maiores produtores mundiais, atrás apenas de China e dos Estados Unidos.

O que o país mais reclama é a urgente melhoria da infraestrutura, porque da porteira da fazenda para dentro a tecnologia e a produtividade são semelhantes às empregadas nos melhores centros produtores do mundo. O problema é a estrada esburacada e a falta de ferrovias. É nisso que o capital chinês pode ser de grande valia no Brasil. Os comunistas modernos não mais exportam a revolução vermelha. Eles enviam homens de negócios para conquistar novos clientes. São essas as razões que levam Lula a Pequim no final de março próximo.

 

André Gustavo Stumpf, jornalista (andregustavo10@terra.com.br)

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