Os minerais no epicentro da desglobalização (por Felipe Sampaio)

Não é à toa que a história do progresso humano é representada pela evolução dos materiais a cada época: Idade da Pedra, do Cobre, do Bronze

atualizado

Compartilhar notícia

Nick Gessler/Duke University
novos-minerais-catalogados-universidade-canada
1 de 1 novos-minerais-catalogados-universidade-canada - Foto: Nick Gessler/Duke University

A mineração surgiu no dia em que um homem das cavernas catou uma pedra para se defender (ou atacar). Inaugurou aí também a competição humana pelo acesso aos minerais. E se na mesma ocasião a turma-do-deixa-disso chegou para apartar a briga, o episódio ainda terá completado o tripé (mineração–guerra–diplomacia) que define a geografia política e econômica até hoje.

Não é à toa que a história do progresso humano é representada pela evolução dos materiais a cada época: Idade da Pedra, do Cobre, do Bronze, do Ferro, do Silício (quem sabe, dos Terras Raras?). Cada uma dessas eras teve seus fatores e modelos de alianças e conflitos entre as nações, em função do uso dos recursos minerais, cada vez mais variados e essenciais para as nações e os negócios. No futuro não será diferente.

Quanto mais a ciência dos materiais industriais avança, mais complexas (e extensas) se tornam as cadeias de suprimentos espalhadas mundo afora. Centenas de novos minérios combinados em milhares de novos materiais, para a produção de milhões de produtos destinados a bilhões de consumidores. A ampliação dos mercados, multiplica também os sistemas produtivos, logísticos e financeiros transcontinentais. Isso exige paz e estudo.

Contudo, segundo Peter Zeihan (Mapeando o Colapso da Globalização, 2022), em breve a globalização será coisa do passado. Como consultor de estratégia da CIA e das Forças Armadas dos EUA, o autor observa que a globalização foi uma invenção do Tio Sam para consolidar sua supremacia após a II Guerra Mundial e conter a União Soviética, tendo como linha de costura o mercado internacional. Tudo garantido pela onipresença militar americana e pelo sistema multilateral bancado pelos EUA: ONU, OMC, FMI, Banco Mundial, OTAN etc. Foi bom para o PIB de todo mundo (e os ianques não precisaram ocupar dezenas de países ao mesmo tempo).

Zeihan acrescenta que, com o fim da Guerra Fria, a Casa Branca perde o motivo para manter essa dispendiosa estratégia de economia globalizada. Um esforço que, além do gasto direto com Defesa e com cooperação financeira internacional, custou ao país o desemprego de milhões de americanos, a segurança interna, o equilíbrio fiscal e a balança comercial.

Até Donald Trump foi capaz de notar que o mundo está em franca desglobalização e que grande parte das atuais cadeias de suprimentos (extensas e dispersas como estão) não se sustentarão no novo cenário fragmentado e competitivo, exigindo dos governos e empresas que revejam a validade de suas parcerias históricas, as configurações de suas exportações e importações e a estrutura dos seus mercados internos. Não é à toa que Trump “queimou a largada” em 2025, imaginando, do seu jeito, rearrumar os negócios internacionais, controlar as rotas marítimas estratégicas, barrar a voracidade chinesa e estancar o “custo Europa”, sem esquecer de exibir os músculos do Pentágono.

O Brasil tem mais uma vez a oportunidade de pensar a longo prazo ao combinar a matemática financeira com a equação geopolítica. Seja para commodities ainda estratégicas, como o ferro e o potássio, ou para os minerais críticos da era digital pós-carbono, a viabilidade das velhas cadeias transoceânicas precisará ser recalculada. A mineração continuará no foco de toda essa desglobalização (irreversível, na opinião de Peter Zeihan). Basta ver o estresse geral assim que a China ameaçou suspender as exportações de terras raras e ímãs, em reação ao tarifaço do Trump.

 

Felipe Sampaio: atuou em grandes empresas, organismos internacionais e 3º setor; foi empreendedor em mineração; cofundador do Centro Soberania e Clima; dirigiu o Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; foi diretor do sistema de estatísticas no Ministério da Justiça; é chefe de gabinete da secretaria-executiva no Ministério do Empreendedorismo.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?