Os egos e o ódio (por Gustavo Krause)

O ódio e o medo conduziram os eleitores estadunidenses às urnas para a eleger pela segunda vez Donald Trump

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sanções de moraes a trump podem atingir esposas de ministros do STF
1 de 1 sanções de moraes a trump podem atingir esposas de ministros do STF - Foto: via Getty Images

Este foi o resultado das eleições americanas. Ego aqui tomado na sua acepção coloquial e não psicanalítica para evitar as derrapadas do charlatanismo. Trata-se de um “EU” devidamente constituído que se revela na personalidade autocentrada, narcísica, que se basta a si próprio ao negar o Outro e praticar o culto de adoração a si mesmo associada a delírios de grandeza.

O ódio e o medo conduziram os eleitores estadunidenses às urnas para a eleger pela segunda vez Donald Trump, subscrevendo a terrível aliança entre o poder político e o poder econômico, um pacto oligárquico diabólico cujo objetivo é a apropriação da coisa pública.

Na verdade, os analistas, os cientistas políticos não se surpreenderam com a administração do Presidente Republicano. Não imaginavam, porém, que ele não só acreditava nas próprias mentiras assim como usasse o que julgava ser a ardilosa e imbatível estratégia do empresário “bem-sucedido”: a negociação. E mirando o próprio umbigo, disparou, adoidado, os drones tarifários.

Cresceu, desmoralizou a “ficha limpa”, venceu o pleito e tomou posse com um prontuário recheado de delitos. Escalou um time da pesada para governar. Além da habilidade universal do puxa-saquismo, todos rezam pela cartilha do chefe que vai da política de imigração, afrontando direitos humanos, até a insanidade de desmantelar a excelência das universidades americanas, um esteio do progresso e da liderança global nos processos inovadores da economia do conhecimento.

Porém, cometeu um erro primário no exercício da política que o mais simplório militante brasileiro tem na sua velha cartilha: não se nomeia quem demitido pode causar danos irreparáveis, ou seja, um perigoso aliado: Elon Musk o homem mais rico do mundo e dono da gigantesca plataforma X (ex-Twitter) que sonha, antes de anexar Marte ao Planeta Terra, ocupar a cadeira do atual líder. E por se achar melhor, já anunciou a vontade de criar um terceiro partido para “arejar” a secular dicotomia Republicanos/Democratas.

Como dizia um velho amigo de meu pai: a inveja matou Abel. Ambos são invejosos. Somente a destruição do concorrente vale como triunfo. São capazes de tudo, exceto revogar o princípio fundamental da física segundo o qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. A raiz do confronto é o conflito de interesses políticos e econômicos a partir das críticas veementes de Musk ao projeto de lei fiscal e orçamentária denominada “One Big Beautiful Bill”. A lei contraria diretamente os interesses empresariais e políticos de Musk com a retirada dos subsídios e incentivos para os carros elétricos da Tesla. O rompimento derivou para o campo das ofensas pessoais, a exemplo das ligações atribuídas a Trump com Jeffrey Epstein que cometeu suicídio após a segunda condenação pela prática crimes sexuais, inclusive, a pedofilia.

Em ambiente bafejado pelos bons ventos da vitória eleitoral e animado pela estética caricatural dos autocratas, Trump criou o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE, na sigla em inglês) e deu a Musk poderes para cortar gastos, cabeças de burocratas “fraudadores” e realizar uma “grande reforma governamental”.

Ora, Trump deu uma tarefa inexequível para os planos de Musk: ele não queria dotar o setor público de eficiência; a real pretensão do bilionário era deixar um “estado mínimo” para Trump governar e um “estado máximo” para alimentar a fortuna e a megalomania muskiana. E mais: ambos, como todo oligarca, são  cleptocratas e não têm noção de limites. Musk conheceu, de perto, as entranhas e o funcionamento do poder e sabe muito sobre a vida pessoal de Trump. E vice-versa.

Como se não bastasse, Trump desrespeita a memória de “Os Pais Fundadores” da nação americana que conceberam o engenhoso Federalismo Político: um sólido pacto de poder que equilibra o Estado Americano entre forças centrífugas e centrípetas, após notável debate público. O presidente Trump mirou a Califórnia. Rico,  democrata e vítima da violência politica.

No modesto bairro da Torre onde vivi grande parte da minha vida, uma encrenca desse tipo podia ter um desfecho complicado. A gente chamava de “barraco”. A antiga nobreza batia-se em duelo para lavar as honras agredidas. Hoje, briga de gente rica, envolvendo, inclusive, as duas pessoas mais poderosas do mundo, tem uma arma sensacional que é a tecnologia digital com uma plateia incrível: A plataforma X de Musk tem 220 milhões de seguidores e a Thruth Social de  Trump, criada em 2022, 10 milhões.

Com efeito, estas lamentáveis ocorrências não são novidades. É uma propensão dos poderosos. Em todas as épocas, o poder é a fonte dos malefícios em larga escala. Guerras, genocídios, terrorismo, agressão à natureza, o deleite de Nero tocando harpa enquanto o incêndio de sua autoria, destruía a bela e imponente cidade e Roma. No nosso mundo, a guerra nuclear é uma ameaça atualizada do imperador piromaníaco.

De verdade, em Hollywood, a meca do soft power bem que podia servir de exemplo, quando nos filmes de faroeste, romanceando a sangrenta conquista do “destino manifesto”, os conflitos eram resolvidos, em duelos, utilizando a habilidade dos “caubóis” a exemplo de John Wayne versus Buffalo Bill. Uma numerosa plateia ia torcer para que os dois acertassem o alvo.

 

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda 

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