
Os efeitos colaterais do voto (por Marcos Magalhães)
Como indica a bula, portanto, o voto no candidato da família pode gerar um clima de radicalização política e de instabilidade institucional

Vamos supor, por pura especulação, que as multidões reunidas nos últimos dias nas principais capitais do país empurrem Luiz Inácio Lula da Silva, morro acima, a uma suada vitória nas urnas. Concluída a apuração, o que vai acontecer?
As boas maneiras democráticas indicam que o candidato adversário, Flávio Bolsonaro, ligaria para Lula, lhe daria parabéns e lhe desejaria sucesso. Como já fez, por exemplo, um adversário ilustre como o ex-governador José Serra.
Alguém imagina a cena? Ou seria mais fácil cogitar que a tropa bolsonarista imediatamente colocaria em dúvida o resultado? Quem sabe divulgando mensagens inaudíveis para os demais liberando ondas de ataques?
Se Lula perde, por outro lado, ele mesmo terá de passar pelo teste do telefone. Ligará para Flávio? Talvez sim, ainda que a contragosto. E provavelmente não vai questionar os resultados, assim como não questionou em outras derrotas.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesOs que apoiam Bolsonaro veem nele uma espécie de remédio para todos os males do Brasil. Antes de ingerir o remédio, no entanto, seria recomendável que procurassem na bula os efeitos colaterais de seu voto.
Pois o primeiro seria o retorno da radicalização da política. Apesar do jeito mais suave de Flávio, ele tem o DNA da família.
E tudo indica que, a exemplo do pai Jair, ele vai falar para os seus, nos cercadinhos que escolher, e vai mobilizar os admiradores com a mesma inspiração fascista das motociatas do ex-presidente.
Uma vez eleito, Flávio já anunciou que quer receber a faixa presidencial de seu pai – o mesmo que não entregou a faixa a seu sucessor. Uma cena para coroar o retorno da família ao Palácio do Planalto.
Ocorre que Lula ainda estará no palácio. E, mais uma vez segundo os bons costumes democráticos, caberia a ele entregar a faixa a Flávio. Como Juscelino Kubitschek entregou ao adversário Jânio Quadros, por exemplo. Ou como Fernando Henrique Cardoso entregou a Lula.
Além disso, Jair Bolsonaro ainda está preso. Para que entregue a faixa ao filho, ele precisaria ser liberado pelo Supremo Tribunal Federal. Apesar da tropa de choque bolsonarista no Supremo, a cena parece pouco provável.
Mas há outros efeitos colaterais. Flávio promete mudar a Constituição. Quer o fim da reeleição. E, como cereja do bolo, quer aumentar para cinco anos o próprio mandato, ainda não conquistado. Inconstitucional, naturalmente.
Também promete uma anistia ao pai. E indica que, caso o Supremo conteste a iniciativa, poderia haver um impasse entre os Poderes.
Como indica a bula, portanto, o voto no candidato da família pode gerar um clima de radicalização política e de instabilidade institucional.
Há outros efeitos colaterais. Entre eles, sérios arranhões à soberania do país. Flávio já anunciou que gostaria de convidar representantes do governo dos Estados Unidos para acompanhar o processo de transição até a sua posse.
Ele pretende adotar um alinhamento total com a Washington de Donald Trump – este mesmo que pode sofrer uma derrota história nas eleições de meio de mandato. E Trump concluiria o projeto de ter aliados de direita em quase toda a América do Sul. O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil?
A política externa sem adesões automáticas, tradicional no Itamaraty desde meados do regime militar, pode sofrer mais um revés, como no governo de Jair. E o outro filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, já é visto como possível chanceler.
A bula é extensa. Tem aquelas letras pequenininhas que ninguém gosta de ler, especialmente quando embriagado pelo desejo de derrotar um antigo desafeto.
Há efeitos colaterais também no meio ambiente, área em que o Brasil sempre tem sido apontado como grande interlocutor mundial. Nos últimos três anos tivemos queda no desmatamento da Amazônia e estímulo à bioeconomia, uma forma justa e ambientalmente correta de prover renda às populações amazônidas.
A julgar pelo governo do pai, Flávio Bolsonaro não deve ligar muito para isso. As reservas obrigatórias de florestas na região Norte, por exemplo, correm perigo. E, na opinião do candidato, as mudanças climáticas são invenção de ambientalistas.
Dá para imaginar o que pode acontecer com a imagem do Brasil se um novo governo Bolsonaro desmontar as políticas ambientais atualmente em vigor.
Também é possível imaginar o que seria da cultura brasileira, um dos maiores instrumentos do soft power nacional. Nos tempos de Jair, uma obscura secretaria de Cultura era um puxadinho no Ministério do Turismo.
A bula ainda indica vários outros efeitos colaterais, como o estímulo às armas. Como já deve ter ficado claro, o país precisa menos de armas e mais de paz. Tanto nas ruas como na política. Paz para se dedicar a um projeto de desenvolvimento com inclusão social, proteção ao meio ambiente e respeito à democracia.

