Os 32% que podem decidir a eleição (por Gaudêncio Torquato)
Como ocorre nas democracias modernas, a decisão final talvez não esteja nas mãos dos mais barulhentos nem dos mais engajados
atualizado
Compartilhar notícia

As eleições presidenciais costumam ser analisadas a partir dos grandes blocos eleitorais. De um lado, os eleitores fiéis ao governo. De outro, os eleitores identificados com a oposição. Entre ambos, existe uma faixa crescente do eleitorado que não se reconhece plenamente em nenhum dos polos políticos. É o chamado eleitorado independente.
Pesquisas da Genial/ Quaest apontam que esse segmento já reúne cerca de 32% dos eleitores brasileiros. Trata-se de um contingente expressivo, equivalente a praticamente um terço do eleitorado nacional. Em uma disputa acirrada, como tudo indica que será a eleição de outubro, esse grupo poderá ser o principal responsável pela escolha do próximo presidente da República. Seus integrantes se mostram propensos a não votar nem em Lula nem em Flávio Bolsonaro.
A importância desse segmento decorre de uma característica fundamental: ele não vota por fidelidade partidária nem por alinhamento ideológico rígido. Seu comportamento é mais pragmático do que emocional. São cidadãos que observam o desempenho dos governos, avaliam o impacto da economia em suas vidas, acompanham temas ligados à segurança pública, à saúde e ao emprego e costumam decidir seu voto a partir de questões concretas.
Historicamente, eleições equilibradas foram definidas por eleitores desse perfil. Eles funcionam como o fiel da balança do processo eleitoral. Quando os candidatos já consolidaram suas bases de apoio, a vitória passa a depender da capacidade de atrair aqueles que permanecem livres de compromissos partidários permanentes.
Esse eleitor não costuma participar das batalhas ideológicas travadas diariamente nas redes sociais. Enquanto militantes reproduzem discursos e narrativas de seus grupos políticos, os independentes observam a realidade cotidiana. Perguntam-se se a inflação está controlada, se os preços dos alimentos cabem no orçamento doméstico, se a segurança pública melhorou, se o emprego aumentou e se existe perspectiva de ascensão social para suas famílias.
Por essa razão, os estrategistas de campanha dedicam atenção especial a esse segmento. A retórica agressiva, que frequentemente mobiliza as bases mais radicalizadas, tende a produzir pouco efeito entre os independentes. O que costuma sensibilizá-los são propostas concretas, capacidade administrativa, equilíbrio político e credibilidade.
A quatro meses da eleição de outubro, a tendência é que o debate nacional seja marcado por grandes eixos. O primeiro será a soberania nacional, que tomou impulso ante os tarifaços impostos pelo Governo Trump, envolvendo ameaças ao uso do PIX, hoje uma unanimidade nacional. Na área da economia, ainda terão peso as questões da renda, inflação, emprego, juros e custo de vida.
Outro será segurança pública, tema que cresce de importância à medida que organizações criminosas ampliam sua presença em diversas regiões do país. Se Lula ou Flávio Bolsonaro apresentarem respostas convincentes para esses desafios poderão ter vantagem junto ao eleitorado independente.
Outro aspecto relevante é o desgaste da polarização. Depois de anos de confrontos permanentes entre grupos rivais, parte da população demonstra cansaço diante do clima de conflito contínuo. Muitos brasileiros passaram a valorizar mais a moderação e a capacidade de diálogo do que o radicalismo político. Esse sentimento ajuda a explicar o crescimento do contingente de independentes.
O quadro torna-se ainda mais significativo porque os núcleos duros dos principais candidatos já apresentam elevado grau de consolidação. Governo e oposição possuem parcelas fiéis que dificilmente mudarão de posição. Isso significa que a disputa real ocorrerá no território ocupado pelos eleitores independentes.
A experiência demonstra que campanhas eleitorais não são vencidas apenas pela força das máquinas partidárias, pelo volume de recursos ou pela intensidade da propaganda. São vencidas, sobretudo, pela capacidade de compreender os humores da sociedade. E esses humores costumam aparecer com mais nitidez exatamente entre os cidadãos que não pertencem a nenhuma torcida organizada da política.
Os próximos quatro meses mostrarão qual candidato conseguirá estabelecer uma conexão mais eficiente com esse grupo. Em uma eleição que promete ser disputada voto a voto, os 32% de eleitores independentes poderão representar muito mais do que um segmento estatístico. Poderão ser os verdadeiros árbitros da sucessão presidencial.
Como ocorre nas democracias modernas, a decisão final talvez não esteja nas mãos dos mais barulhentos nem dos mais engajados, mas daqueles cidadãos que observam, comparam, avaliam e escolhem apenas na reta final da campanha. Um terço do eleitorado brasileiro encontra-se nessa condição. E é justamente aí que poderá estar a chave da eleição de outubro.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor emérito da ECA-USP, escritor e consultor político


