O voto passa pelo bolso (por Hubert Alquéres)

Indicadores positivos não bastam quando renda, preços e insegurança moldam a experiência cotidiana do eleitor

atualizado

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Michael Melo/Metrópoles
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1 de 1 imagem colorida moeda de um real com gráfico no segundo plano - Foto: Michael Melo/Metrópoles

Lula e sua equipe queimam a pestana para entender por que o bom desempenho dos indicadores da economia, com inflação sob controle e emprego em alta, não se traduz na aprovação do governo. Tampouco produziu, até aqui, uma situação confortável para a disputa presidencial. Ao contrário, a curva de desaprovação cresce e o favoritismo se estreita, indicando um cenário mais competitivo do que o esperado.

A expectativa no Planalto era outra. Apostava-se em colher dividendos políticos de medidas de impacto, com destaque para a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais. Março chegou sem que a medida produzisse o efeito imaginado. A nova aposta, a jornada de trabalho cinco por dois, ainda está por se mostrar viável.

O problema parece mais profundo do que a eficácia de iniciativas isoladas. Não se trata de negar que a economia apresenta sinais positivos. Trata-se de reconhecer um descolamento entre esses indicadores e a vida real das pessoas. Como já se disse em outro contexto histórico, a economia pode ir bem enquanto o povo vai mal. Hoje, esse descompasso é visível: o endividamento das famílias consome cerca de 29,6% da renda, limitando qualquer sensação de alívio.

Esse quadro ajuda a entender a eficácia limitada de políticas como o Desenrola. A renegociação de dívidas funcionou como paliativo, mas não alterou as condições estruturais. Três anos depois, o comprometimento da renda familiar segue elevado. Da mesma forma, a estratégia de expandir o crédito para estimular o consumo já mostrou seus limites em experiências anteriores: quando desacompanhada de aumento consistente de renda, tende a postergar o problema.

Para compreender o descolamento entre indicadores e percepção, é preciso explicitar três vetores principais. O primeiro é a renda disponível ainda pressionada. O dado de emprego elevado esconde a precariedade de uma parcela relevante das ocupações. Pelo critério estatístico, basta ter trabalhado uma hora na semana para ser considerado ocupado. Na prática, milhões de brasileiros vivem de bicos, atividades informais ou empregos de baixa remuneração. Não por acaso, cerca de 39% dos ocupados estão na informalidade, em condições marcadas por instabilidade.

O segundo vetor é a percepção de preços. A inflação pode estar sob controle nos indicadores agregados, mas alimentos e serviços, itens centrais no orçamento das famílias, continuam pressionando o custo de vida. Para quem vive de renda curta, a inflação relevante é a do supermercado, do aluguel e das contas do mês. Segundo a pesquisa Quaest, 53% dos brasileiros afirmam que sua renda não acompanha a elevação dos preços. Em termos simples: sabem que o dinheiro não chega até o fim do mês.

O terceiro vetor é a insegurança econômica. Endividamento elevado, renda instável e ausência de redes de proteção produzem uma sensação difusa de vulnerabilidade. Não se trata apenas de ganhar pouco, mas de não saber se será possível manter o padrão mínimo no mês seguinte. Essa insegurança corrói qualquer percepção positiva derivada dos indicadores macroeconômicos.

Esses três fatores ajudam a explicar o estado de ânimo captado pelas pesquisas. A eles se soma um crescente desencanto com o governo, que amplifica os efeitos econômicos sobre a percepção da população. Episódios recentes envolvendo o INSS, fragilidades de gestão e a percepção de um núcleo político excessivamente restrito reforçam a sensação de distância entre o poder e a vida real das pessoas.

Predominam sentimentos de cansaço, medo e incerteza. Trata-se de um cotidiano marcado por jornadas múltiplas, trabalhos precários e esforço contínuo para fechar o mês. A vida se organiza em torno da sobrevivência, e não de projetos de médio prazo. O cansaço, portanto, não é apenas físico. É também psicológico.

Esse quadro pode se agravar. A depender da evolução de tensões internacionais, como os conflitos no Oriente Médio e seus impactos sobre o petróleo, há risco de pressão adicional sobre preços e juros. Isso tende a afetar diretamente o poder de compra, especialmente das camadas mais vulneráveis, e a tornar ainda mais pesada a dívida das famílias.

Há ainda um elemento estrutural frequentemente subestimado: a qualidade do crescimento. Não basta crescer; importa como se cresce e quem se beneficia. Quando a expansão se apoia em setores de baixa produtividade, com geração de empregos precários e baixa remuneração, seu impacto na vida concreta das pessoas é limitado. O PIB pode avançar, mas a mobilidade social permanece travada. Para muitos, a sensação é de estagnação, ou mesmo de retrocesso.

Nesse contexto, também muda o comportamento do eleitor. Se em outros momentos o voto era mais permeável a narrativas políticas, hoje ele se ancora de forma mais pragmática na experiência cotidiana. Trata-se de um eleitor menos ideológico e mais sensível ao custo de vida, que confia mais no que diz o extrato bancário do que os indicadores oficiais.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, no último ano do governo Biden, a combinação de emprego elevado e inflação em queda não impediu a insatisfação dos eleitores.

O desafio político que se coloca, portanto, não é apenas de comunicação. Não se trata de explicar melhor os números, mas de alterar as condições concretas que moldam a vida das famílias. Isso implica enfrentar o custo de vida, melhorar a qualidade do emprego e reduzir a vulnerabilidade associada ao endividamento. Agenda que permaneceu sem o enfrentamento necessário.

Sem isso, qualquer estratégia eleitoral estará assentada em terreno instável. Porque, no fim das contas, a política, assim como a economia, também se mede pelo bolso. E, quando ele aperta, não há narrativa que resista.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

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