O tapete vermelho de Beijing (por Marcos Magalhães)
Yamandú Orsi é o terceiro líder ocidental a visitar a China em pouco mais de duas semanas
atualizado
Compartilhar notícia

O distrito de Chaoyang, onde estão as principais embaixadas em Beijing, tem a mesma população do Uruguai – 3,5 milhões de habitantes. Mesmo assim, os diplomatas mais atentos baseados ali anotarão que o presidente Yamandú Orsi é o terceiro líder ocidental a visitar a China em pouco mais de duas semanas.
Quem abriu a série foi o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, encerrando um longo período de más relações entre os dois países – especialmente a partir da detenção, em 2018, de Meng Wanzhou, filha do fundador da empresa de telecomunicações chinesa Huawei.
Principal executiva financeira da Huawei, ela foi interrogada ao chegar ao aeroporto de Vancouver e colocada em prisão domiciliar devido a pedido de extradição do governo dos Estados Unidos, sob a acusação de fraude, e só voltou à China em 2021.
O presidente Xi Jinping classificou a visita de Carney como uma “reviravolta” nas relações bilaterais. Os resultados foram modestos: redução das tarifas aplicadas às exportações canadenses de óleo de canola e a permissão de entrada no Canadá de 49 mil veículos elétricos chineses.
Poucos dias depois foi a vez de o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, visitar a China. Também neste caso havia um resfriamento nas relações. A última viagem a Beijing de um governante britânico havia sido oito anos antes.
E, igualmente, os resultados foram escassos. Os turistas britânicos não precisarão mais de vistos em visitas à China de até 30 dias. E as tarifas chinesas de importação de whisky escocês caíram à metade.
Nos dois casos, pequenas concessões chinesas a dois países com os quais as relações estavam frias, para dizer o mínimo. Mas que viram na rota para Beijing um caminho mais seguro do que as imprevisíveis relações com Washington.
Ou seja, Carney e Starmer, líderes de países que até então tinham estreitas relações com os Estados Unidos, fizeram de suas viagens à China uma espécie de resposta às atitudes pouco amistosas de Donald Trump.
Na segunda-feira, então, começaram a ser divulgadas na internet pelo governo do Uruguai as primeiras fotos do Yamandú Orsi junto à Muralha da China. Nesta terça-feira, o presidente uruguaio terá um encontro com o Xi Jinping.
A visita, de uma semana, será mais longa que as dos líderes do Canadá e do Reino Unidos. Incluirá encontros com empresários chineses e uruguaios e visitas a universidades e centros de pesquisa em Beijing e Shanghai.
Ao contrário de Carney e Starmer, Orsi não tem grandes problemas a resolver com a China. Ao contrário, a China já é o principal destino das exportações uruguaias – com 26% do total exportado. Compra 86% das exportações uruguaias de soja e se tornou a principal consumidora da celulose produzida no Uruguai.
Trump não gostou das viagens a Beijing dos chefes de governo de dois países até então considerados aliados próximos. Chegou a classificar de “perigosa” a agenda da visita de Keir Starmer.
Por causa do pequeno tamanho da economia uruguaia, ele provavelmente não dará muita atenção à viagem de Yamandú Orsi. Mas Orsi é o primeiro líder de um país do Mercosul a seguir o exemplo, neste ano, do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que, em maio, fez sua quarta visita de Estado à China.
Orsi também preside o primeiro país do bloco a defender a celebração de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a China. Acordo que parece receber apoio de partidos de esquerda e direita no Uruguai.
É cedo para dizer se esse acordo vai mesmo sair algum dia. A indústria brasileira pode não gostar muito da ideia. E o atual presidente da Argentina, Javier Milei, tem sido aliado incondicional dos Estados Unidos, cada vez mais preocupados com a presença econômica chinesa na América do Sul.
Por sua vez, Donald Trump pretende atrair de volta à esfera de influência dos Estados Unidos os países desta parte do mundo que eles chamam de Hemisfério Ocidental – ou seja, as Américas.
Se as viagens de Carney e Starmer demonstram que importantes líderes ocidentais não estão dispostos a aceitar a liderança incondicional americana, a visita de Orsi a Beijing indica que o Brasil não está sozinho na região ao manter relações próximas com Beijing.
A poucos meses das eleições, porém, o Brasil precisa definir com clareza os seus principais objetivos nas relações com a China, em tempos de fragilidade do multilateralismo e de competição cada vez mais intensa entre as duas maiores potências econômicas do planeta.


