O retorno dos engenheiros do caos  (por Antônio Carlos de Medeiros)

O nome do jogo é engajamento. Para canalizar o medo, a raiva, o ódio e a cólera. Escolhendo inimigos políticos para calcificar a polarização

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Igo Estrela/Metrópoles
Bolsonaristas invadem depredam prédios públicos em manifestação antidemocrática. Manisfestantes apoiadores do governo Bolsonaro cercam veículo blindado do COT na praça dos Três Poderes
1 de 1 Bolsonaristas invadem depredam prédios públicos em manifestação antidemocrática. Manisfestantes apoiadores do governo Bolsonaro cercam veículo blindado do COT na praça dos Três Poderes - Foto: Igo Estrela/Metrópoles

Atenção! É preciso que o Centro do espectro político se prepare. O retorno de Jair Bolsonaro ao Brasil já reativou as máquinas digitais dos “engenheiros do caos”, nas redes sociais e no ciberespaço. O reforço da calcificação da polarização política.

É boa hora para ler, ou reler, o livro “Engenheiros do Caos”, de Giuliano Da Empoli. Ele narra os fatos, eventos e fenômenos que convergiram para a ascensão dos físicos, cientistas e consultores especializados em Big Data, oriundos das premissas da física quântica. Criaram, na metáfora de Empoli, “partidos-algoritmos”, sobrepujando os partidos políticos tradicionais.

São os protagonistas da utilização das plataformas digitais, a partir do Facebook, para a construção do neo-populismo em escala transnacional: Gianroberto Casaleggio, com o Movimento 5 Estrelas na Itália; Steve Bannon, com Trump nos EUA; Dominic Cummings, com o Brexit no Reino Unido; Milo Yannopoulos, o blogueiro inglês que trabalhou com Trump; e Arthur Finkelstein, conselheiro de Viktor Orban. Dentre muitos outros.

Entenderam e canalizaram o espírito da época para a construção do neo-populismo. O nome do jogo é engajamento. Para canalizar o medo, a raiva, o ódio e a cólera. Escolhendo inimigos políticos para calcificar a polarização política, em causação circular. Cultivar a cólera e estimular o narcisismo das “selfies”, para criar sensação de pertencimento, tensionando a polarização política com os seus algoritmos.

Esvaziam a possibilidade da moderação política que converge para o Centro, objetivo da democracia liberal. Estimulam os extremos. Direcionam a política para movimentos centrífugos. Que se voltam para reverter os movimentos centrípetos da democracia representativa. Em vez da moderação, o radicalismo.

O “partido digital” se torna adversário dos partidos políticos tradicionais, enfatiza Giuliano Da Empoli. Substitui a democracia liberal pela “iliberal”. Trolls, fake news, verdades alternativas que colocam a democracia representativa no canto do ringue.

Trata-se da hegemonia cultural do ciberespaço, retratada no trabalho seminal de Empoli. Aqui no Brasil resultou, como sabemos, no bolsonarismo, inspirado por Bannon e por Trump. Bolsonaro também na trilha de Carl Schimitt, citado por Empoli : “a política consiste, antes de tudo, em identificar o inimigo”.

Pois bem. Jair Bolsonaro está de volta. O seu PL, liderado por Valdemar Costa Neto, programa iniciar desde já viagens pelo Brasil, seja com Jair Bolsonaro, seja com Michelle Bolsonaro. Pé na estrada para alimentar engajamentos e a polarização antipetista com o governo Lula. Colocando, desde já, as eleições de 2024 nas ruas. Mirando 2024 e, principalmente, 2026. É o “modo eleição permanente”, que construiu o bolsonarismo.

Assim, mesmo com as possibilidades de inelegibilidade que pairam sobre Bolsonaro, o fato concreto é que o partido-algoritmo está de volta. Agora, também, com avanços de “novidades” tecnológicas: (1) o “deep fake”, onde a Inteligência Artificial substitui rostos em vídeos de fotos;(2) os “malwares”, softwares que transmitem informações sem consentimento dos seus proprietários; (3) os ecossistemas de nichos (fóruns de discussões e outros) que, sem monitoramento social impulsionam narrativas ( por exemplo, fraudes nas eleições).

Sinais de tensões centrífugas permanentes sobre a conjuntura política brasileira. É hora do presidente Lula materializar para valer a ideia da Frente Ampla. Isto não aconteceu ainda. Ainda é hora. Mas a ampulheta está na mesa.

 

*Pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science.

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