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Blog do Noblat - 22 anos

O que você está autorizando com o seu voto? (por Zé Américo Silva)

Você sabe a diferença entre ser cúmplice e ser conivente?

09/10/2026 10:01, atualizado 09/10/2026 10:08
Arte/Metrópoles
Imagem colorida mostra Lula e Flávio - Metrópoles

Na discussão política, a pergunta serve para distinguir quem apoia conscientemente uma conduta de quem reconhece o problema, mas aceita que ele continue. Não é uma acusação criminal contra o eleitor. É uma provocação sobre responsabilidade: quando sabemos o que um candidato pensa e defende, o voto deixa de ser um gesto sem consequências.

Flávio Bolsonaro disputa a Presidência como herdeiro político de Jair Bolsonaro. Mas seu histórico precisa ser examinado por seus próprios atos. O sobrenome não basta para condená-lo, assim como uma apresentação mais moderada não basta para absolvê-lo de suas posições.

Na biografia que escreveu sobre o pai em 2017, Flávio nega o golpe de 1964, elogia Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador, e justifica a atuação dos policiais no massacre do Carandiru. Sua assessoria respondeu que o livro expressa valores de democracia, família e liberdade.

O eleitor precisa confrontar essa explicação com o conteúdo da obra. Que compromisso com a democracia existe na exaltação de agentes da repressão? Combater o crime autoriza transformar um massacre em exemplo de atuação legítima? Quem aceita a violência de Estado contra os outros deveria perguntar quem garantirá seus próprios direitos quando estiver do lado vulnerável.

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Na Previdência, o histórico também é concreto. Flávio votou a favor da reforma de 2019. A mudança estabeleceu idades mínimas de 65 anos para homens e 62 para mulheres na regra geral e alterou o cálculo dos benefícios, passando a considerar todas as contribuições, sem excluir as 20% menores.

Isso mudou as condições de aposentadoria para milhões de trabalhadores. E Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, já defendeu uma nova revisão das reformas previdenciária e trabalhista. A declaração não permite inventar uma proposta fechada de corte, mas exige uma resposta: revisar o quê, para beneficiar quem e com qual custo para quem trabalha?

Na legislação trabalhista, o plano de Flávio defende acordos diretos entre trabalhador e empresa e jornadas flexíveis. Promete reduzir custos sem retirar direitos. A promessa precisa ser confrontada com seus efeitos. Quando um lado precisa do salário para comer e o outro controla a contratação, quanto dessa negociação é realmente livre?

Em 6 de outubro, Flávio chamou de oportunista a iniciativa de acabar com a escala 6×1 e defendeu pagamento conforme as horas trabalhadas. Nesse modelo, diminuir a jornada pode significar receber menos, enquanto a proposta discutida no Senado prevê mais descanso sem redução salarial.

Você quer tempo para viver ou terá de comprar esse tempo com uma parte do salário? Quem depende da carteira assinada precisa cobrar garantias concretas para férias, décimo terceiro, FGTS e descanso. Não basta ouvir que haverá modernização. É preciso saber quais proteções serão preservadas e como.

Na saúde, o rigor também importa. Seu programa prevê corrigir a tabela do SUS, ampliar a Saúde da Família e contratar serviços privados. Não apresenta a extinção do sistema. A cobrança deve ser sobre orçamento, acesso e fortalecimento da rede pública. Contratar atendimento não resolve, sozinho, a necessidade de postos funcionando, profissionais disponíveis e cuidado contínuo.

Quem depende do SUS precisa perguntar: haverá recursos suficientes? Quais metas serão cumpridas? Como será garantido atendimento gratuito e de qualidade onde o mercado não tem interesse em investir?

Nos programas sociais, Flávio promete manutenção e integração com oportunidades de trabalho. Criar autonomia é desejável. Mas proteção social não pode depender de um emprego que ainda não existe. Quem ficará responsável pela família se a oportunidade prometida não chegar? Que garantias impedirão que uma revisão administrativa deixe pessoas vulneráveis sem renda?

E há a soberania brasileira. Flávio agradeceu a Donald Trump e pediu sanções pela Lei Magnitsky em publicação de 9 de julho de 2025, no mesmo dia em que o presidente americano anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e vinculou a medida ao tratamento judicial de Jair Bolsonaro. Em agosto de 2026, Flávio disse que Eduardo errou ao agradecer pelas tarifas.

A mudança de discurso merece explicação. Por que agradecer e pedir sanções naquele contexto? Os interesses do Brasil podem ser subordinados à defesa de uma família? Quem se apresenta como patriota precisa explicar por que acolhe pressão estrangeira sobre instituições brasileiras.

É legítimo discordar de Lula, criticar o PT e querer alternância. Mas rejeitar um governo não dispensa examinar o projeto que pretende substituí-lo. O voto precisa considerar o emprego, a aposentadoria, a saúde, a democracia e a independência do país.

Depois de conhecer esse histórico, você concorda com essas posições ou prefere ignorá-las para manter sua escolha?

Se concorda, assume responsabilidade política pelo que está ajudando a autorizar. Se discorda, mas considera tudo tolerável, precisa reconhecer sua conivência com aquilo que diz rejeitar.

A pergunta permanece: cúmplice ou conivente?

Antes de responder na urna, pense no que seu voto pode significar para a sua vida e para o futuro do Brasil.

*Zé Américo Silva é jornalista e publicitário