O que uma cidade sueca pode ensinar ao Brasil (por Mariana Caminha)

Saí para almoçar outro dia com a amiga Patrícia Cordeiro, jornalista experiente que já viveu na Suécia

atualizado

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Suécia
1 de 1 Suécia - Foto: Reprodução/ Freepik

Entre um prato e outro, a conversa enveredou – como tantas vezes acontece – para clima, cidades e essas soluções que parecem distantes, quase estrangeiras demais para a nossa realidade.

Foi quando ela me falou de Västerås.

Não é o tipo de cidade que costuma frequentar o nosso imaginário. Eu mesma nunca tinha ouvido falar. Não é Estocolmo, não é cenário de filme, não é destino turístico óbvio. Trata-se, na verdade, de uma cidade industrial. Daquelas que cresceram ao redor de fábricas, de infraestrutura pesada, de engenharia.

Västerås não nasceu verde. Não foi desenhada já com ciclovias perfeitas e energia limpa. Ela precisou se transformar para se adaptar à atual realidade. E, ao fazer isso, acabou se tornando uma espécie de laboratório silencioso da transição climática.

Patrícia descrevia com certa naturalidade algo que, para nós, ainda soa futurista: um sistema de aquecimento urbano que aproveita calor gerado por resíduos e por processos industriais para aquecer casas inteiras. O que sobra da indústria vira conforto dentro de casa. O que seria desperdício vira eficiência.

Isso tudo não é apenas uma solução técnica. É uma mudança de lógica.

Ali, energia, cidade e indústria conversam entre si.

Enquanto ela falava, pensei no Brasil, claro, e em como ainda tratamos esses sistemas como compartimentos isolados. Energia é energia. Cidade é cidade. Resíduo é problema. Raramente pensamos em como uma coisa pode resolver a outra.

Aí que está o “pulo do gato”.

A transição climática, quando acontece de verdade, não se dá apenas em grandes anúncios ou projetos grandiosos. Ela acontece nessas conexões menos visíveis. No encanamento que leva calor de um lugar para outro. Na decisão de reaproveitar o que antes era descartado. Na integração entre diversas partes desse todo.

Västerås também investiu pesado em eletrificação, em mobilidade urbana, em planejamento. Mas nada disso parece feito para impressionar. É quase o oposto: é feito para funcionar.

Imagine o que poderíamos fazer no Brasil, esse país que conta com uma vantagem estrutural de poucos: uma matriz elétrica majoritariamente renovável. No entanto, seguimos enfrentando desafios básicos de integração.

Produzimos energia limpa, mas perdemos eficiência na distribuição. Temos potencial em economia circular, mas ainda tratamos resíduos como fim de linha. Temos cidades vibrantes, mas pouco conectadas em termos de planejamento energético e climático.

No fim do almoço, ficou a sensação de que o modelo Västerås é difícil demais para ser copiado – são contextos muito diferentes.

Mas esta pequena cidade sueca funciona nos ensina que dá para transformar uma base industrial em algo mais eficiente, mais inteligente, mais alinhado com o clima. Tudo isso sem abrir mão do desenvolvimento.

As soluções mais interessantes, Västerås nos lembra, nem sempre são as mais visíveis.

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