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O que a trilha revela sobre a água que não vemos (por Mariana Caminha)

Aprendi coisas inquietantes. Como a presença comprovada de microplásticos na água do Lago Paranoá

24/03/2026 11:19
Mariana Caminha
O que a trilha revela sobre a água que não vemos (por Mariana Caminha)

Paixão recente, fazer trilhas tem me proporcionado momentos muito prazerosos. Eu, que sempre quis uma companhia para me aventurar por aí, acabei encontrando – por acaso, no Instagram – um grupo organizadíssimo dedicado à prática.

Sem pensar duas vezes, me inscrevi no plano anual das Trilheiras de Brasília, um grupo formado apenas por mulheres que, há seis anos, une atividade física, natureza e socialização. São centenas, pelo que soube.

A trilha do último domingo foi no Parque das Garças, às margens do Lago Paranoá. Durante boa parte do caminho, tive o prazer de conversar com a geóloga Lucieth Vieira, professora da UnB, e com sua companheira, Manuelle Góis, que, além do bom papo, nos presenteou com deliciosos milhos cozidos para o lanche – plantados, colhidos e preparados por ela mesma.

Era o Dia Mundial da Água e, coincidentemente, falamos muito sobre ela – do mar, das inundações, dos riscos da vida costeira e também daquele lago que, silenciosamente, nos acompanhava ao lado.

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Aprendi coisas inquietantes. Como a presença comprovada de microplásticos na água do Lago Paranoá. E mais do que isso: evidências de que esses microplásticos se depositam no fundo, num processo de sedimentação já estudado por pesquisadores da UnB. O fundo do lago, ao que tudo indica, funciona como um reservatório invisível de poluição plástica.

Invisível, mas presente.

Também fiquei sabendo da presença de pirarucus por ali – aqueles peixes enormes, quase pré-históricos. Apesar de a pesca ser permitida, fiquei me perguntando se o consumo desse peixe seria realmente indicado. Em um lago onde já se identificam microplásticos e até traços de substâncias tóxicas, o que exatamente se acumula ao longo da cadeia alimentar?

Caminhávamos, conversávamos, compartilhávamos nosso amor pela natureza e nosso medo diante do que o futuro nos reserva.

As trilhas, aprendi, nos levam para dentro da paisagem. Às vezes, também escancaram problemas que preferiríamos não enxergar.

No Dia Mundial da Água, ficou a sensação de que o maior risco já não está no que é visível. Está no que se acumula em silêncio – no fundo dos lagos, nas correntes, nos detalhes que passam despercebidos. Daí a urgência de agir.