O peixe vale mais vivo do que frito (por Roberto Caminha Filho)

“Eu não quero nem que Deus me ajude, só peço que Ele não me atrapalhe”

atualizado

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Arquivo Pessoal
Imagem colorida, Pintado de 50 kg é pescado em rio do Paraná- Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida, Pintado de 50 kg é pescado em rio do Paraná- Metrópoles - Foto: Arquivo Pessoal

Os brasileirinhos do Norte do Brasil estão se animando, a cada ano, com as legiões de gringos que invadem os nossos rios e lagos, para se divertirem e encherem os nossos porquinhos de moedas. Manaus, Boa Vista, Macapá, Porto Velho e Belém vivem um fenômeno muito curioso. Basta chegar a temporada da pesca esportiva, quando os nossos rios baixam as suas águas, e os nossos aeroportos parecem congressos internacionais de pescadores e outros mentirosos.

Descem, de todos os tipos de aviões: americanos, ingleses, franceses, espanhóis, paulistas, argentinos, goianos, japoneses e catarinenses carregando tubos gigantescos, varas de carbono, carretilhas douradas, prateadas e aquele doce semblante infantil de fisgar o tucunaré da vida. Não se vê um rifle e ninguém falando nos belíssimos patos com dois metros de envergadura.

É um desfile da felicidade com a paciência.

Enquanto uns viajam para Paris atrás de bolsas, outros atravessam continentes atrás de um tucunaré-açu de 12 quilos para tirar foto, medir, beijar o peixe, chamar o guia de “meu irmão da selva” e devolvê-lo para o rio como se fosse um herói olímpico voltando ao habitat natural. Só não beijam as lindas saratogas (aruanãs), pirarucus e as nervosas piranhas. Por que essa discriminação?

E aqui começa uma revolução econômica silenciosa. A Amazônia descobriu, sem muito alarde, que peixe vivo vale mais do que peixe morto.

Um tucunaré pescado comercialmente pode render alguns poucos reais na banca do mercado. Mas o mesmo tucunaré, vivo, brigando na ponta da sofisticada linha de um turista americano, pode movimentar milhares de reais em hospedagem, gasolina, piloteiros, barco-hotel, combustível, alimentação, traslado aéreo, iscas artificiais, taxas ambientais, empregos locais, colares, danças, camisas, zarabatanas, arcos e flechas, estatuetas esculpidas na jarina, o marfim da Amazônia.

É a “commodity invisível” da Amazônia.

Não sai em navio. Não aparece na balança comercial. Não gera fila no porto. Mas entra, em dólar vivo, dentro da economia regional.

Nos Estados Unidos, isso já virou indústria séria faz tempo. A pesca esportiva movimenta bilhões de dólares por ano. Há incentivos, licenças, proteção ambiental, campeonatos televisionados e cidades que prosperam graças ao turismo de pesca. São milhões de empregos.

Lá, o sujeito pega um bass ou tarpon, tira a foto e devolve o peixe para a água com pedido de desculpas. Aqui, ainda existe autoridade pública tratando pescador esportivo como se fosse um cidadão suspeito carregando uma vara de pescar clandestina.

Enquanto isso, comunidades amazônicas começam a entender algo brilhante: preservar o peixe dá mais dinheiro do que estragá-lo. Um lago preservado atrai turistas durante décadas. Um lago depredado gera miséria em poucos meses. Os peixes estão sendo mimados.

E aí entra o grande debate que Brasília ainda não entendeu direito: turismo de pesca não é brincadeira de rico. É cadeia econômica completa.

O pescador esportivo dorme em hotel. Compra cerveja. Contrata guia. Usa combustível. Paga translado. Compra artesanato. Come peixe regional. Gera emprego para cozinheira, piloteiros, mecânicos, marinheiros, pousadas, taxistas e até para os caboclos que vendem farinha do Uariní e tucupi nos mercadinhos dos municípios.

Um único barco-hotel movimenta mais renda em algumas regiões do que muita obra pública que vive eternamente “em fase de licitação”. A proibida BR 319 levará os turistas pescadores, mais depressa, para perto dos portos com partidas tranquilas aos grandes lagos.

E o mais engraçado é que o Brasil possui o maior aquário natural de pesca esportiva do planeta. Além do que, nossos simpáticos caboclos e índios, não falam em guerras ou escalpos, só gostam de açúcar, sal e cachaça. Se quiserem falar de futebol, é com eles mesmos.

Nenhum lugar do mundo reúne a combinação amazônica de rios e lagos gigantescos, biodiversidade absurda, peixes agressivos e paisagens cinematográficas.

O tucunaré-açu virou uma Ferrari aquática e se pegarem o difícil pirarucu, o gringo comemorará como se o pescado fosse um marciano.

O pirarucu é um dinossauro sindicalizado. A piranha continua com fama de vilã de cinema americano. O nosso jacaré-açu, cinco metros de gentileza, só exige uma respeitável distância dos seus sonos e namoros.

Falta integração entre o Ministério do Turismo e o Ministério da Pesca. Falta linha de crédito para pousadas sustentáveis. Falta treinamento profissional para comunidades ribeirinhas. Falta estrutura aeroportuária regional. Falta internet. Falta divulgação internacional pesada.

E principalmente: falta, ao Brasil, entender que floresta preservada pode dar lucro sem precisar derrubar uma única maracatiara. O pescador esportivo moderno não quer destruir. Ele quer experiência.

Quer acordar ouvindo araras e periquitos. Quer tomar café olhando o Rio Negro coberto de neblina. Quer ouvir história de boto. Quer fotografar vitória-régia. Quer jantar tambaqui assado enquanto exagera no tamanho do peixe que perdeu.

A verdade é simples: o cluster do tucunaré (cadeia da pesca) já entendeu desta economia, mais do que muito burocrata de gabinete.

O cônsul da Colômbia, Dr. Renê Gutierrez, ao se despedir dos amigos no porto de Manaus, que lhe desejavam a ajuda de Deus para a sua pescaria, respondeu, com inteligência, bondade e elegância:

“Eu não quero nem que Deus me ajude, só peço que Ele não me atrapalhe”

 

Roberto Caminha Filho, economista, torce pelos namoros de pacus, piranhas, tucunarés, aruanãs, piranhas e pirarucus com os pescadores e soltadores de peixes.

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