O ocaso dos paradigmas (por Ricardo Guedes)

Acho que nós, o pessoal das Ciências Sociais, deveríamos pensar mais e errar menos, com mais subsídios ou mais cautela nas afirmações

atualizado

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Hugo Barreto/Metrópoles
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Nas décadas de 1950, 1960, 1970, 1980, a grande questão se limitava à “democracia” x “socialismo”. O que seria melhor para as sociedades, a “democracia” americana, entendida como referência e produto de exportação, ou o “socialismo” do leste europeu, mesmo com os seus problemas, com uma mensagem da maior equidade social?

Terminei os meus estudos no Doutorado de Ciências Políticas na Universidade de Chicago em 1982, de Adam Smith com a teoria do mercado a Merton e Parsons com a funcionalidade das sociedades; e do outro lado Marx, com a teoria da luta de classes a Gramsci com a teoria do aparelhamento do Estado; além de outros tantos grandes autores, como Maquiavel na análise do poder político, Rousseau com a necessidade do “Contrato Social”, Durkheim com a organicidade das sociedades, Freud com o consciente e o subconsciente, Simmel com a cumplicidade recíproca entre o líder e o liderado, Weber com o sentido da ação na interação social, e outros tantos, como base do pensamento analítico e compreensivo das sociedades modernas.

E, paradoxalmente, quem diria, quem mais aparelhou o Estado para o domínio da ordem institucional foi Trump! Como disse um grande amigo meu, é “Gramsci na veia”, sem ter lido Gramsci, certamente, mas intuitivo. A teoria para um lado, a prática para o outro.

Em 1989, cai o Muro de Berlim, e em 1991 se dissolve a União Soviética. Tantos possíveis sonhos se foram. Pensei: “era somente isso, o regime era ineficiente?”  Agora, a democracia americana, com seus 250 anos de institucionalidade, parece desmoronar. Penso: “então era um frágil arranjo, sem representatividade e sem força?” Onde foi o “We the People of The United States”?

Assim é também na Economia.

São dois os principais paradigmas atuais: o do “mercado”, e do “desenvolvimento”.

O primeiro, o do “mercado”, simploriamente traduzido para “zera-se” o déficit público e soltam-se as amarras que o homem “Schumpteriano” então vai fluir, em verdade diz mais respeito a culturas históricas pontuais do que a regras que expressem o comportamento geral. Os “Moralistas Escoceses”, incluindo Adam Smith, mais expressaram e sistematizaram um comportamento emergente do que induziram o desenvolvimento na Inglaterra. Como diz Stinchcombe, o mercado sempre existe, dentro dos limites de cada cultura. Milei, por exemplo, acredita no “homem econômico” das teorias de mercado, mas esquece que, por estas bandas de cá, tudo se move segundo o “hardware” das “Organizações Tabajara”, nas palavras de Edson de Oliveira Nunes.

As teorias do “desenvolvimento” também se embaralham. Crescer e crescer o PIB, é o pressuposto, dentro das atuais limitações dos recursos naturais? A ecologia pode vir a ser, ainda, uma ciência. Mas no estágio atual, a ecologia está para uma possível equação futura, assim como o Iluminismo Francês esteve para as Ciências Sociais e Econômicas dos séculos XIX e XX.

Talvez seja melhor um pouco de tudo, com pequenos alcances, “the middle range theories”, ou mesmo com maior amplitude, se bem consubstanciado, e com alternativas, porque, no fundo, as Ciência Sociais e Econômicas expressam o comportamento do homem, que é errático e incerto.

Apenas algumas reflexões.

 

Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e Autor do livro “Economia, Guerra e Pandemia: a era da desesperança”  

 

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