O mundo quer matar-nos (Por Miguel Esteves Cardoso)

A vida é como um assassino profissional que, como tem muito trabalho e já não vai para novo, é profundamente incompetente

atualizado

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Lápide, cemitério
1 de 1 Lápide, cemitério - Foto: Reprodução/ Pexels

Agora é todos os meses: todos os meses morre alguém que eu preferia que continuasse vivo.

São já tantos à minha espera do outro lado que começa a não ser fácil escolher este onde estou. Não falo apenas dos amigos e dos que conheci, mas de todos de quem gostei, e aos quais me fui felizmente habituando, ao ponto de ficar surpreendido pela falta que me fazem.

Será bondosa esta forma que a vida arranja de nos habituar à morte, para não ser tão chocante quando começa a chegar a nossa? Seja como for, aprende-se que a morte tem duas grandes vantagens: é rara e só acontece uma vez.

Olho para a vida dos que morreram – e para a minha, porque é impossível dissociá-la, não sei porquê – e pergunto, se calhar porque me convém, se não estamos a olhar de maneira errada para a vida e para a morte.

E se o mundo nos quer matar desde que estamos na barriga da nossa mãe? E se tenta outra vez quando nascemos? E se cada bebé é já um sobrevivente de dois atentados?

Pense nas doenças que já teve: mais atentados. Pense nos acidentes que evitou: mais atentados. Pense nos riscos e nos perigos que correu: pôs ou não pôs a cabeça a jeito?

A vida é como um assassino profissional que, como tem muito trabalho e já não vai para novo, é profundamente incompetente e preguiçoso. Em vez de se concentrar numa só solução mortífera, tenta matar-nos com tudo o que tem à mão, e falha repetidamente. Na volta, não distingue entre a casca de banana e o cianeto.

Claro que acaba por acertar – o mais das vezes quando já estamos muito velhinhos e já estamos um bocadinho fartos de encolher o rabo e baixar a cabeça –, mas água mole em pedra dura que mérito é que tem? Se assim for, a morte é o momento em que a madrasta da vida finalmente ganha a lotaria da nossa eliminação.

Que bonito seria inscrever-se nos nossos caixões um número grande, pintado com tinta amarela: o número de vezes em que cada um de nós sobreviveu aos atentados para nos matar. E que bem que sobrevivemos.

 

(Transcrito do PÚBLICO)

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