O livro de Bruno Carazza (por Ricardo Guedes)

Parece que o Brasil é mais do que a apropriação do estado pelos estamentos das elites, mas um estado originalmente desenhado

atualizado

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O livro de Bruno Carazza, “O país dos privilégios”, sistematiza e traz-nos informações, através de pesquisa robusta, que nos mostram de como os estamentos das elites do país controlam e se apropriam do estado e da economia, de forma progressiva e crescente. Em suas palavras, “O estado brasileiro é uma máquina de criar e distribuir benesses”. Por sua importância no pensamento social brasileiro, o livro é um “must”.

Nos autores clássicos, a explicação das sociedades, através da relação entre duas variáveis, sempre esteve presente, como em Adam Smith com o mercado e o desenvolvimento, e em Marx com a oposição entre o capital e o trabalho.

O pensamento social brasileiro, em suas origens, sempre interpretou o país através da dicotomia de duas variáveis que se opõem, em um modo contínuo de alternação em suas dinâmicas, gerando diferentes configurações ao longo da história. Estas dicotomias, em conceitos diversos de autor para autor, estão presentes nos trabalhos de Oliveira Viana, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, dentre outros, e entre os autores recentes, como em Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e Simon Schwartzman.

Weber conceituou as sociedades em três tipos: a racional-legal, como resultado do atendimento à população por um estado burocrático eficiente e organizado; as sociedades que dependem de uma liderança carismática, em transformação; e o estado patrimonial, onde a política se apropria do estado como se fosse sua propriedade no gerenciamento da economia em seu próprio interesse.

Raymundo Faoro, em sua obra “Os donos do poder”, aplica a concepção do patrimonialismo ao Brasil, com uma decorrência institucional e legado cultural da herança portuguesa no país.

Edson de Oliveira Nunes, é o primeiro autor a conceituar o Brasil como o resultado de mais do que duas variáveis, em seu livro “A gramática política do Brasil”, estabelecendo um paradigma como obra de referência no pensamento social brasileiro. São quatro as relações, ou “gramáticas” que explicam o Brasil: “o clientelismo, o corporativismo, o insulamento burocrático e o universalismo de procedimentos”, em um modelo dinâmico, que se somam e se alternam em suas magnitudes, ao longo da história, no controle social. Neste sentido, o Brasil é um país único em sua formação política e social. Metodologicamente, é difícil a formulação de uma teoria com mais de duas variáveis, tanto nas ciências físicas como nas ciências sociais.

Parece que o Brasil é mais do que a apropriação do estado pelos estamentos das elites, como em Weber, mas um estado originalmente desenhado para este fim, como hipótese.

O livro de Bruno Carazza vem a somar no pensamento social brasileiro.

Ricardo Guedes é formado em Física pela UFRJ e Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago

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