O Grande Embuste: quem venceu a guerra dos 12 dias (por Lucio Reiner)

“Na guerra, a verdade é a primeira vítima”  Ésquilo (circa 500 a.C.)

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1 de 1 Imagem colorida de mapa com peças de xadrez representando os EUA, Israel e Irã - Metrópoles - Foto: Getty Images

A guerra dos “Doze Dias” entre Estados Unidos e Israel, de um lado, e o Irã, de outro, terminou com um cessar-fogo inusitado: todos os três lados declararam vitória. Mas quem fala a verdade? Nenhum.

Israel demonstrou sua conhecida superioridade militar. Com ataques aéreos fulminantes, destruiu instalações e lançou bombas até sobre hospitais e áreas civis, prática que envergonha a história do país. A força aérea israelense é a mais eficiente da região, e o Mossad infiltrou-se no Irã, promovendo sabotagens de grande impacto. Ainda assim, não conseguiu impedir o revide. Pela primeira vez, mísseis iranianos romperam o famoso Domo de Ferro e atingiram Tel Aviv e Haifa. Os danos materiais foram bem menores que os provocados por Israel, mas o efeito psicológico foi devastador: Israel já não é intocável.

Os objetivos declarados pelo chefe do governo israelense, “Bibi” Netanyahu, já indiciado como criminoso de guerra, eram eliminar o programa nuclear iraniano e derrubar o regime dos aiatolás. Nenhum deles foi alcançado. O programa nuclear segue ativo e a teocracia xiita saiu fortalecida, apoiada por uma população que, ao ser bombardeada, se uniu em torno do governo. O ódio contra Israel e, por extensão, contra judeus do mundo, ganhou mais combustível e garantirá ressentimento por gerações.

Os Estados Unidos entraram no conflito para atender aos apelos de Netanyahu. Há décadas ele proclama que o Irã está “a meses” de fabricar uma bomba nuclear — um discurso que se revelou falso repetidamente. Trump, sempre ansioso por protagonismo, promoveu uma operação midiática e lançou superbombas contra centros nucleares iranianos. Do ponto de vista tático, foi um êxito. Mas logo ficou claro que o impacto estratégico foi limitado: a inteligência americana não conseguiu comprovar que o programa nuclear tenha sido destruído. Para piorar, a Agência Internacional de Energia Atômica informou que o Irã pode retomar o enriquecimento de urânio em questão de meses. A resposta de Trump foi culpar seus próprios serviços secretos e proclamar ao mundo que havia “aniquilado” a capacidade nuclear iraniana — mais uma bravata desmentida pelos fatos.

À primeira vista, o Irã parece ser o derrotado. Sofreu pesados bombardeios, perdeu generais, cientistas e boa parte do seu arsenal. Mas conseguiu romper a mítica defesa israelense e mostrou que pode atingir o território inimigo. E, politicamente, transformou a agressão externa em argumento de coesão nacional. Conforme atestam as multitudinárias manifestações de apoio ao governo. Se o objetivo dos EUA e Israel era enfraquecer o regime teocrático, conseguiram o oposto.

No balanço final, todos mentiram. Mas só o Irã soube transformar parte de sua derrota em ganho estratégico, reforçando o nacionalismo e preservando parte de seu programa nuclear.

Bacharel em Relações Internacionais (ScPo Paris). Mestre em Relações Internacionais (UnB). Foi Chefe da Assessoria Internacional e Protocolo do Presidente da Câmara dos Deputados

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