O grande ausente (por Hubert Alquéres)
O centro pode não ter candidato, mas segue presente no eleitorado e pode definir o resultado da eleição
atualizado
Compartilhar notícia

Pela primeira vez desde a redemocratização brasileira, uma eleição presidencial se aproxima sem a presença clara de um candidato identificado com o campo do centro-democrático. Ao longo das últimas décadas, mesmo quando esse espaço parecia eleitoralmente frágil, ele sempre encontrou alguma forma de se expressar na disputa. Agora, o cenário é distinto: o centro político, entendido como um campo comprometido com a democracia liberal, com reformas graduais e com a conciliação social, encontra-se sem um porta-voz nítido.
A eleição presidencial tornou-se um terreno pouco permeável a propostas que escapem da lógica do confronto. Sem uma candidatura que tenha a conciliação como método e a moderação como eixo, o Brasil se encaminha para mais uma disputa centrada menos em projetos de país e mais na rejeição mútua entre dois polos. Não se debatem ideias, mas quem tem maior rejeição.
Essa ausência se torna mais evidente quando se recorda que, mesmo em momentos de polarização intensa, o centro-democrático encontrou formas de participar do debate eleitoral. O paradoxo atual é que o centro parece desaparecer do palco eleitoral, mas seus eleitores continuam existindo. Pesquisas de opinião indicam a presença de um contingente relevante de brasileiros que não se identificam plenamente nem com a esquerda nem com a direita e demonstram preferência por soluções mais moderadas, pragmáticas e institucionalmente responsáveis.
Esse eleitorado, contudo, encontra-se órfão de representação. A ausência de uma candidatura competitiva não significa que a demanda por moderação tenha desaparecido. Ao contrário, indica a existência de um espaço político aberto, ainda sem tradução eleitoral.
A história política brasileira mostra que, em momentos decisivos, foi justamente o campo do centro-democrático que construiu as pontes necessárias para promover mudanças profundas sem ruptura institucional. Esse campo produziu algumas das mais importantes lideranças da história republicana e foi responsável por momentos-chave de modernização do país.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o governo de Juscelino Kubitschek. Sua estratégia combinou desenvolvimento econômico acelerado com ampla articulação política. O programa “cinquenta anos em cinco” impulsionou a industrialização e simbolizou a ambição de um país voltado ao futuro. Juscelino governou pela construção de consensos.
Outro momento decisivo foi a transição do regime militar para a democracia. Nesse processo, lideranças com forte capacidade de negociação e compromisso democrático, como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves ou Franco Montoro tornaram possível a passagem para a Nova República.
A Constituição de 1988 nasceu da convergência entre lideranças políticas de diferentes matizes ideológicas, da oposição democrática tradicional aos novos movimentos sociais, capazes de construir um pacto amplo em torno da reconstrução institucional do país. Nos anos 1990, o centro-democrático voltou a desempenhar papel decisivo ao enfrentar a hiperinflação crônica que corroía a renda da população. A estabilização da economia por Fernando Henrique Cardoso abriu caminho para reformas que modernizaram o Estado brasileiro e redefiniram seu papel. Mais uma vez, o avanço foi possível pela capacidade de articulação política em torno de um projeto comum.
Esses exemplos mostram que o centro-democrático não foi apenas um espaço de moderação abstrata. Foi, em diversos momentos, o motor de transformações profundas. A conciliação política, frequentemente vista como fraqueza por críticos mais radicalizados, foi o método utilizado para promover mudanças estruturais sem provocar rupturas institucionais.
Hoje, no entanto, a política brasileira atravessa um período de fragmentação e polarização ideológica que dificulta a construção de consensos amplos. A lógica do confronto permanente reduz o espaço para projetos baseados na negociação e na moderação.
Isso não significa, contudo, que o centro-democrático tenha desaparecido. Ele permanece presente na sociedade, ainda que ausente na disputa eleitoral. Existe um eleitorado que não se reconhece na radicalização do debate público e que busca referências políticas capazes de combinar estabilidade institucional, responsabilidade econômica e compromisso social.
É justamente aí que se encontra a chave da eleição que se aproxima. Se não há, até o momento, um candidato claramente identificado com esse campo, isso não elimina a existência de eleitores que esperam ser representados por ele.
Em um cenário de polarização acentuada e margens estreitas de vitória, esse eleitorado pode se tornar decisivo. Não por sua organização política, mas por sua disponibilidade para aderir a um discurso que ofereça moderação sem fraqueza, firmeza sem radicalização e capacidade de governar sem ruptura.
O grande ausente desta eleição, portanto, não é apenas um candidato específico. É uma tradição política que, em outros momentos da história nacional, desempenhou papel decisivo na construção do Brasil moderno.
Mas sua ausência não é definitiva. Ela é, antes, um vazio em disputa. E vencerá quem souber reconhecê-lo, e falar com ele.
_____________________________
Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.


