O futuro das américas e a polarização (por Gaudêncio Torquato)

Os conflitos políticos nas Américas não são apenas disputas programáticas. Tornaram-se conflitos de identidade.

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Imagem colorida mostra atos da direita e da esquerda durante o feriado de Sete de Setembro em São Paulo - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra atos da direita e da esquerda durante o feriado de Sete de Setembro em São Paulo - Metrópoles - Foto: Metrópoles

O continente americano, formado pelas três Américas (do Norte, Central e do Sul), que somam 35 países soberanos e abrigam uma população combinada de aproximadamente mais de 1,037 bilhão de pessoas, vive um ciclo de tensões políticas que atravessa fronteiras, conecta sociedades distintas e revela uma mesma raiz: a incapacidade dos sistemas institucionais de lidar com as demandas de sociedades fragmentadas, digitais, velozes e profundamente desiguais.

A polarização, antes periférica ou restrita a cenários eleitorais, tornou-se o pano de fundo permanente da vida pública do Alasca à Patagônia. Em sua passagem pelo Brasil para participar da COP30, em Belém, concluída em 21/11/2025, o secretário-geral da OEA, Albert Randim, em entrevista à Folha de Paulo (16/11/2025), reconhece a gravidade do problema. A polarização, diz ele, é uma dura realidade que temos de enfrentar, mas “temos lideranças políticas responsáveis nas Américas que verão o benefício de trabalhar em conjunto”.

Os conflitos políticos nas Américas não são apenas disputas programáticas. Tornaram-se conflitos de identidade. No lugar de debates racionais sobre políticas públicas, emergem guerras culturais, moralistas e afetivas. A política deixa de ser um campo de negociação para virar uma arena de pertencimento, onde cada lado busca reafirmar sua narrativa totalizante.

Nas redes sociais, algoritmos alimentam indignação, reforçam vieses e transformam divergências em antagonismos absolutos. O cidadão, exposto a um fluxo constante de mensagens segmentadas, passa a viver numa espécie de micro realidade, reforçada por tribos digitais, influenciadores e lideranças.

Os EUA formam o epicentro da polarização global. A eleição americana tornou-se, há pelo menos duas décadas, a matriz da polarização mundial. A divisão entre progressistas e conservadores, republicanos e democratas, assume hoje contornos quase sectários.

O fenômeno Trump cristaliza esse processo: um populismo digital, combativo, identitário, que se retroalimenta do ressentimento de parcelas da classe média branca, dos trabalhadores industriais desocupados e da sensação difusa de perda de status.

Ao mesmo tempo, setores progressistas se radicalizam em pautas identitárias, ambientais e comportamentais, ampliando o fosso com segmentos conservadores. A governabilidade vira refém de um Congresso sequestrado por extremos, enquanto a confiança na Justiça e nos órgãos republicanos se degrada. A instabilidade americana afeta o continente inteiro — política, econômica e simbolicamente.

A América Latina, como um todo, é um território de desigualdade, frustração e populismos de revezamento. A polarização latino-americana, embora influenciada pelos EUA, tem raízes domésticas profundas: desigualdade estrutural, baixa qualidade institucional, violência, corrupção recorrente e economias vulneráveis.

O resultado é um revezamento cíclico entre populismos de direita e de esquerda. Brasil, Argentina, Venezuela, México, Peru, Chile e Colômbia experimentam oscilações bruscas, onde cada governo se elege como reação visceral ao anterior. A política vira pêndulo: ora punitivista e conservadora, ora redistributiva e estatizante.

A falta de projetos de Estado impede a formação de consensos mínimos. Sem continuidade, não há desenvolvimento de longo prazo; sem desenvolvimento, cresce a frustração social; com frustração, ampliam-se as brechas para narrativas messiânicas.

Por outro lado, a revolução digital alterou radicalmente o ecossistema informacional do continente. As Américas vivem hoje sob uma espécie de “democracia algorítmica”: eleições, debates, movimentos e percepções coletivas são moldados por plataformas privadas, cuja lógica é maximizar engajamento, e não promover convivência democrática.

Desinformação, teorias conspiratórias, manipulação de afetos, micro-targeting e bots (ferramentas digitais poderosas e controversas) são práticas usadas principalmente em marketing e comunicação política.

Em muitos países, o debate público se tornou refém de “nuvens emocionais” que sobem e descem conforme a lógica das redes. As feridas abertas – imigração, violência e desigualdade – são três temas que tendem a agravar a polarização no futuro próximo. No tema da imigração, a fronteira dos EUA com o México continua sendo palco de narrativas explosivas: segurança x humanidade; soberania x integração; xenofobia x acolhimento. Na América Latina, a migração venezuelana renova tensões regionais e pressiona serviços públicos.

No segundo tema, a violência assume a condição de prioridade número um no México, Brasil, Equador, Colômbia e América Central, que enfrentam o crime organizado como força paralela de poder, capaz de interferir em eleições, territórios e políticas públicas. No Brasil, a violência, ou a questão da segurança pública, é a maior preocupação dos brasileiros e dará o tom da campanha eleitoral do próximo ano.

Quanto ao tema da Desigualdade, a América Latina segue sendo a região mais desigual do mundo. Sem reformas que ampliem mobilidade social, a polarização se cristaliza como ressentimento intergeracional.

Sob essa moldura, os cenários para o futuro das Américas deixam ver três movimentos estruturais que moldarão o destino do continente. O primeiro cenário é o da persistência da polarização tóxica. Nesse cenário, a manutenção da lógica “nós contra eles” pode gerar instabilidade crônica, alternância destrutiva de governos e até tensões institucionais mais graves, sobretudo nos EUA, México, Brasil e Argentina. O segundo cenário é o da moderação através do cansaço social. Espraiam-se sinais de fadiga da polarização em setores do eleitorado. No Brasil, pesquisas mostram que grande parcela do eleitorado rejeita a polarização radical, que tem se alastrado nos últimos anos e que ganha impulso nos territórios bolsonaristas e petistas.

A busca por lideranças mais pragmáticas tende a crescer, abrindo espaço para governos de reconstrução, pactos mínimos e políticas mais técnicas.

O terceiro cenário é o da integração regional com pragmatismo. O avanço tecnológico, a transição energética e a disputa geopolítica entre EUA e China podem incentivar mais cooperação econômica nas Américas, redundando em blocos regionais mais sólidos e agendas comuns.

Em suma, o futuro do continente dependerá da capacidade de construir instituições mais resilientes, criar sistemas educacionais que formem cidadãos informados, implantar redes públicas de informação confiáveis e formar lideranças capazes de dialogar com a complexidade do mundo digital.

O século XXI ainda pode produzir uma América mais plural, integrada e madura, desde que as sociedades se disponham a romper o ciclo de ódio e reconstruir a confiança na política.

 

GAUDÊNCIO TORQUATO é escritor, jornalista, professor-emérito da ECA-USP e consultor político

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