O Flu é o Brasil (por Roberto Caminha)

Fechemos com o Nelson Rodrigues. Ele sabe tudo, desde o começo, quando disse: “O FLA-FLU começou quarenta minutos antes do nada”

atualizado

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Julio Aguilar – FIFA/FIFA via Getty Images
Foto colorida de time do FLuminense - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida de time do FLuminense - Metrópoles - Foto: Julio Aguilar – FIFA/FIFA via Getty Images

“Toda unanimidade é burra.” A frase é de Nelson Rodrigues, o cracaço camisa 10 da crônica esportiva brasileira. E por isso mesmo, vou logo contrariar a maioria e dizer: o Brasil precisa vestir a camisa do Fluminense se quiser ganhar a Copa de 2026. Eu sou Flamengo desde pequenininho e não aprendi a torcer contra. Torço a favor ou não torço. Nas Copas do Mundo de Futebol que eu fui, torci muito pelo Brasil. O Brasil saía e eu era Hermano de vestir camisa.

Sim, você leu certo. Nada de modéstia. Nada de meio-termo. O tricolor carioca virou o exemplo do que a Seleção precisa: coragem, organização, humildade defensiva e altivez nos momentos decisivos. E, acima de tudo, um pouco de sofrimento com elegância. Afinal, como diria Nelson de novo:
“O Fluminense tem a vocação da eternidade.”

Enquanto muita gente ainda vive da saudade de 1982, da bola bonita e do futebol que encantou mas perdeu, o Fluminense entendeu uma coisa que o Brasil ainda não aprendeu direito: é preciso saber sofrer. E mais do que isso, é preciso estudar, planejar e fechar a casa quando o inimigo bate à porta. Ou melhor: quando vem lançando bolas aéreas pra dentro da nossa área.

Não é só raça. É inteligência emocional tática. O Flu não é o time que joga por um empate — mas é o time que sabe empatar quando precisa. E ganhar quando ninguém  mais acredita.

Chega agora o professor Ancelotti, um técnico com mais títulos que final de novela da Globo, pra treinar a nossa perdida Seleção Canarinho. E ele não vem sozinho: traz preparador físico, analista, psicólogo, e, quem sabe, até o tarólogo do Papa em vídeo chamada. E o que esse italiano quer ensinar? Justamente o que o Fluminense já pratica:

“O futebol é simples. Quem tem a bola ataca, quem não tem defende.”
— É o brasileiro Carlo Ancelotti, direto ao ponto, como café expresso. Quem desloca, recebe; quem pede tem preferência. Coisas que os brasileiros ensinaram ao mundo para logo depois…desaprenderem.

Desde 1982, o Brasil sofre de um romantismo suicida. Jogamos como quem quer ganhar Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas futebol, como diz o velho Tostão, “é um jogo de erros. Ganha quem erra menos.” E o Flu aprendeu isso na “porrada”.

Torcer pro Flu é quase uma iniciação filosófica: você aprende a lidar com o azar, a não comemorar antes da hora e a nunca desistir.

O Flu entrou na Copa como timinho e sairá como o timaço, que sempre foi.
“O Fluminense é um desses times que, quando perde, não acaba.” — Nelson Rodrigues de novo, batendo no peito com orgulho.

E é isso que a Seleção precisa ser: um time que não acaba com um gol no contra-ataque. Que sabe se recompor. Que não abre a defesa como porta de padaria às seis da manhã. Flamengo, Palmeiras e Botafogo se abriram, pensando que estavam jogando em Copacabana e pegaram o avião da Tia Leila.

A Seleção não precisa parar de atacar. Só precisa parar de atacar pessimamente mal. Precisa saber alternar. Aprender que linha de quatro ou cinco não é castigo — é necessidade. A Itália ganhou em 1982 nos torturando com ferrolho.

–         Defesa também ganha jogo — frase consagrada por Zagallo, que sabia o valor de um 1×0 muito bem administrado.

Por isso digo: quer aprender a ser competitivo de novo? Vista o tricolor. Estude o Flu. Vibre com um carrinho na lateral como se fosse um gol de bicicleta.

Então, torcedor brasileiro, do Oiapoque ao Chuí, de Roraima a Realengo: se queremos vencer em 2026, precisamos de mais do que talento. Precisamos de fibra, foco e uma pitada de cara de pau organizada. Isso o Flu está mostrando e com sobra.

O Flu é o Brasil que deu certo no improviso com disciplina. Que sofreu, apanhou, estudou o adversário e venceu. Um Brasil que joga com o coração, mas não esquece de levar o cérebro pro campo. O goleiro Fábio é bom fora do gol e ótimo debaixo da trave. O Thiago Silva ainda é um zagueiro central no melhor estilo europeu. Ele orienta o goleiro, a zaga e os meio-campistas. O Martinelli é um meio-campista europeu, como o seu nome italiano, que não erra passe e ainda é ótimo na destruição. Aí chega ao ponto alto do time, o Árias, que faz com a bola o que os nossos melhores craques faziam: domina-a, olha para o goleiro adversário e parte pra cima com a gana do Pelé. O moreno sabe o que faz.

Se Carlo Ancelotti entender isso — e ele vai — a Copa estará divertidamente no papo. Podemos comprar à prazo, as cervejas do próximo ano. Nós poderemos voltar sem as Copas, tanto agora como em 2026, mas passamos a ser competitivos. Nós estávamos perdendo para a Venezuela da crise.

E se alguém duvidar, responda com estilo do Nelson Rodrigues:
“O Fluminense nasceu com a vocação para a eternidade. E a eternidade agora veste verde-amarelo.” Fechemos com o Nelson Rodrigues. Ele está nos ajudando lá de cima e ele sabe tudo, desde o começo, quando disse: “O FLA-FLU começou quarenta minutos antes do nada”.

 

Roberto Caminha Filho, economista e rubro-negro, agora é tricolor e assiste aos jogos com a camisa do Urubu.

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