O dia em que Lygia Bojunga virou ameaça (por Hubert Alquéres)

Publicado em 1976, em pleno regime militar, “A Bolsa Amarela” ajudou a transformar a literatura infantil no Brasil.

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1 de 1 Crianças-escola-militar-TO - Foto: Reprodução/Redes sociais

Uma escola militar do Distrito Federal decidiu retirar de circulação A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, após reclamações de pais que enxergaram na obra referências inadequadas a questões de gênero. A notícia chama atenção por transformar um dos maiores clássicos da literatura infantil brasileira em objeto de suspeita ideológica.

Publicado em 1976, em pleno regime militar, A Bolsa Amarela ajudou a transformar a literatura infantil no Brasil. Lygia Bojunga pertence a uma geração de autores, como Ana Maria Machado ou Ruth Rocha, que rompeu com a ideia de que livros destinados a crianças deveriam ser apenas moralizantes ou pedagógicos. Sua literatura introduziu densidade emocional, imaginação, medo, inadequação, desejo de liberdade e conflitos interiores como elementos legítimos da experiência infantil. Não por acaso, tornou-se a primeira autora brasileira a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante reconhecimento internacional da literatura infantil e juvenil.

É justamente aí que reside a principal contradição do episódio. O problema não parece estar no livro, mas na forma como ele passou a ser lido. Literatura não é cartilha ideológica. Personagens não são panfletos. Conflitos narrativos não equivalem automaticamente à defesa de comportamentos ou agendas políticas. Quando uma obra literária passa a ser examinada apenas como instrumento de vigilância moral, perde-se a capacidade de compreender o que distingue literatura de propaganda.

A questão ultrapassa, portanto, o debate específico sobre gênero. O que está em jogo é algo mais amplo: a dificuldade crescente de lidar com ambiguidades, metáforas, e conflitos próprios da literatura. Em vez de formar leitores capazes de interpretar criticamente textos complexos, cria-se uma cultura de leitura policialesca, na qual livros passam a ser investigados em busca de desvios ideológicos.

O paradoxo histórico é inevitável. A Bolsa Amarela surgiu em pleno regime militar, nunca foi censurada e logo consolidou-se como um clássico da literatura infantil brasileira. Décadas depois, passa a ser alvo de suspeita não por crítica política explícita, mas porque parte da sociedade passou a enxergar ameaças ideológicas até mesmo em narrativas voltadas à imaginação infantil.

Naturalmente, escolas e famílias têm o direito, e até o dever, de discutir adequação etária, mediação pedagógica e critérios de escolha de obras literárias. Esse debate é legítimo. O problema começa quando a reação abandona o terreno pedagógico e passa a tratar a literatura como objeto de interdição moral ou suspeita política.

Não é a primeira vez que obras literárias se transformam em objetos de suspeita. Isso quase nunca fortaleceu a educação ou a cultura. A literatura infantil séria nunca tratou apenas de histórias leves ou edificantes. Ela também aborda medos, frustrações, inadequações e descobertas.

Proteção excessiva pode produzir exatamente o oposto do que pretende: jovens menos preparados para lidar com complexidade, diferença e pensamento crítico.

Talvez o aspecto mais preocupante do episódio seja outro. Uma sociedade começa a empobrecer culturalmente quando perde a capacidade de distinguir livros de panfletos. Quando clássicos da imaginação infantil passam a ser tratados como ameaça ideológica, talvez o problema já não esteja nos livros.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.

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