O Comendador Ventura e a política (por Pedro Costa)
No fundo, o Comendador é mesmo um fascista disfarçado. Como todo fascista, ele adora a mentira
atualizado
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Não sei se o leitor é amigo do Comendador Ventura, o estupendo boneco de Divito que aparece diariamente na Folha Carioca. Se for, me desculpe, me deixe que lhe diga: não considero o Comendador simplesmente humano, um retrato de nossas humanas fraquezas, das nossas vaidades, das nossas tentações, das nossas pequenas renúncias e abdicações diárias, mas um mestre da hipocrisia e do cinismo. Talvez porque na fase que começo a viver deteste acima de tudo a mentira (embora reconheça nela sinal certo de água viva, isto é, de inteligência e de imaginação). Sórdido Comendador! Ele inveja os meninos parados em redor do domador de serpentes, mas passa ao largo. Desejaria sentar-se ao lado da Dona Boa, mas vai procurar o banco da Velha Careca. Preferiria gritar sua fortuna, mas sorri modesto e socialista. Treme de frio sem roupas de inverno, mas empina o peito como a quilha de um navio singrando os Sete Mares e o rio Amazonas. Torce de moer os dedos nas corridas, ri feito criança no circo, adora um bêbado cantando, e até se enternece com o luar, mas conserva impassível a cara invulgar e abstrata, suficiente porém e solidamente superior. Símbolo dolorosíssimo, sinto-o capaz de “meetings” contra o nu das praias depois de sair de um banho de mar.
Por tudo isso, ocorreu-me um calafrio na espinha quando li, nos jornais de hoje, notícia da transformação democrática a que Hitler ia submeter o seu próprio governo. Deixaria de ser “Fuehrer” para ser presidente da República; convidaria o infernal Dr. Schacht, recém-saído da cadeia, para ministro da Fazenda. Ministro da Guerra seria Von Brauchitsch. Von Papen, Chanceler. “O objetivo dessas medidas”, diz gravemente um jornal pro-nazi sueco, “seria preparar o caminho para uma reconciliação com os elementos da oposição”.
Pleno reinado das malasartes do Comendador Ventura…
Fico pensando como seria a política do Comendador Ventura, caso um dia resolvesse deixar seu confortável individualismo e interessar-se pelo Poder. Seria alguma coisa parecida com o meu velho tipo de “homem de circo” e, todavia, mais aperfeiçoada. Nós o veríamos exteriormente liberal e benéfico, enquanto por dentro acumulava cipó de tamarindo, cacete de jucá, umbigo de boi, relho e peia, para surrar gente, clavinote, rifle, metralhadora, fuzil e gás lacrimogêneo para atirar nas massas ignaras (creio que é o adjetivo clássico para massas. Vou perguntar a um desses mestres de um português sem preconceitos, Antenor Nascentes ou Ayres da Mata Machado). Se o Comendador tivesse chefiado ou apenas orientado um dos governos fascistas – ou uma de suas máscaras – através do mundo, de certo o encontraríamos vigilante e atarefado, a remendar, a pregar meias solas, numa ânsia de eleger, de votar, de legitimar. No íntimo, porém, o sonho acalentado seria o da perpetuidade, alicerçada num fascismo branco, informe, hipócrita. À sua palavra de ordem, rebentariam democratas do solo, como “chapéu de sapo” depois da chuva…O céu ficaria cheio de formigas de asas. Quem as visse girando na luz, pensaria logo: mariposa legítima, e das velhas penas surgiriam velhos chavões, já enterrados e mortos: “o sol do idealismo”, “a luz do voto popular”. Vai-se ver, são centenas de discípulos do Comendador. E aqui surge um problema: será o Comendador o próprio Diabo, o Cão?
No fundo, o Comendador é mesmo um fascista disfarçado. Como todo fascista, ele adora a mentira. E tudo indica que adora também o Poder e a Riqueza. Nunca evidentemente os teve na mão, porque não os largaria mais. Viraria monarquista, republicano, socialista, parlamentarista, anglófilo, russófilo, entusiasta da hispanidad, simpatizante do fascismo, conforme os ventos que soprassem. No fundo, seria apenas o nosso eterno Comendador. E, se fosse rico, nós o haveríamos de ver, disfarçado em apóstolo, bater à porta do Céu, onde creio que, na capa do livro de São Pedro (a que o povo, que é quem realmente sabe dessas coisas, sempre se refere e que, portanto, incontestavelmente existe), na capa do livro de São Pedro, os desenhos têm como motivo a palavra divina: “Mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”.
Ah! Comendador, Comendador, zela por tua alma. E zela também por teu corpo. Comendador, ingênuo Comendador…Julgas possível disfarçar as coisas com o véu diáfano da Fantasia? Ou pensas que Hitler Presidente apagará a lembrança do Führer, o republicano Mussolini fará esquecer o Duci, Franco dormirá caudilho e acordará inocente? Acabou-se esse tempo, o tempo em que zombavas da tempestade e até da cadeia:
“Ne me frego
De la galera
Camicia Nera
Trionferá”
Chegou um tempo em que a mistificação mais sutil não triunfará, não. Podes encher o peito, Comendador, e jurar pela democracia. Podes sorrir ou mesmo, para disfarçar o súbito horror das gargalhadas sadias, cantar árias novas, improvisar novos passes. Não enganarás ninguém. Acabaste. Adeusinho.
Odylo Costa, filho — Escritor e jornalista. Pela transcrição, Pedro Costa


