Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Foto de Blog do Noblat
Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

O chinês que ouvia as águas (por Mariana Caminha)

O mundo perdeu Kongjian Yu, reconhecido globalmente como o idealizador do conceito das cidades-esponja

30/09/2025 11:32
Projeto de Kongjian Yu
O chinês que ouvia as águas (por Mariana Caminha)

Na semana passada, o mundo perdeu uma das mentes mais revolucionárias da arquitetura e do urbanismo: o chinês Kongjian Yu, reconhecido globalmente como o idealizador do conceito das cidades-esponja.

Sua proposta inovadora defende o uso da vegetação e do redesenho de rios e córregos na revitalização de paisagens urbanas, com o objetivo de mitigar os efeitos de eventos extremos, como as enchentes. Ao contrário da gestão convencional das águas pluviais — que aposta em canos, galerias e no reforço das margens dos rios com concreto para acelerar o escoamento e evitar transbordamentos —, a cidade-esponja adota a lógica oposta: absorver a água da chuva e retardar o escoamento superficial.

Em 2015, o presidente chinês Xi Jinping lançou oficialmente o Programa Cidade-Esponja, incentivando municípios a priorizar infraestrutura verde em vez das chamadas soluções “cinza” (baseadas em cimento, concreto, aço e asfalto). O conceito, no entanto, é universal e já foi aplicado em mais de 250 localidades ao redor do mundo, consolidando-se como um dos mais emblemáticos exemplos de soluções baseadas na natureza.

“Você não pode lutar contra a água. Precisa deixá-la escoar”, repetia o arquiteto em entrevistas. A metáfora ganhava força quando ele descrevia os benefícios da chamada “água lenta”. Dizia ele: “ecologicamente, favorece a infiltração, reabastece os lençóis freáticos e filtra poluentes. Socialmente, devolve a água à cidade como elemento vital. Parques tornam-se áreas alagadas, ruas viram corredores verdes e planícies de inundação convertem-se em espaços comunitários. Crianças brincam, aves retornam e o cidadão urbano redescobre uma intimidade esquecida com a natureza. A água lenta também suaviza os extremos climáticos — refrescando o ar, mitigando secas e favorecendo a biodiversidade. Economicamente, reduz custos de infraestrutura cinza e cria valor adaptativo de longo prazo.”

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

Em visita ao Brasil, Kongjian Yu conheceu áreas verdes em centros urbanos, participou da Bienal de Arquitetura de São Paulo e se preparava para ir ao Pantanal, onde colaboraria para a gravação de um documentário sobre terras alagadas. Em um evento do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, em Brasília, afirmou ver o Brasil como “a última esperança para salvar o planeta”. Não é difícil imaginar quanto nosso país, que tanto sofre com enchentes, poderia ganhar com a parceria de uma mente visionária como a dele.

Sua partida precoce nos lembra a filosofia que defendia: a necessidade de humildade diante do meio ambiente. Pensar em cidades-esponja é falar de muito mais do que infraestrutura — é falar de convivência com a natureza, de reverência diante da água, como ensina a cultura chinesa, e de resiliência diante da vida. Kongjian Yu nos deixa um desafio claro: transformar concreto em permeabilidade, pressa em fluxo lento, rigidez em adaptação. Mais que um legado técnico, sua obra é um convite poético: reaprender a ouvir as águas.