O chinês que ouvia as águas (por Mariana Caminha)

O mundo perdeu Kongjian Yu, reconhecido globalmente como o idealizador do conceito das cidades-esponja

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Na semana passada, o mundo perdeu uma das mentes mais revolucionárias da arquitetura e do urbanismo: o chinês Kongjian Yu, reconhecido globalmente como o idealizador do conceito das cidades-esponja.

Sua proposta inovadora defende o uso da vegetação e do redesenho de rios e córregos na revitalização de paisagens urbanas, com o objetivo de mitigar os efeitos de eventos extremos, como as enchentes. Ao contrário da gestão convencional das águas pluviais — que aposta em canos, galerias e no reforço das margens dos rios com concreto para acelerar o escoamento e evitar transbordamentos —, a cidade-esponja adota a lógica oposta: absorver a água da chuva e retardar o escoamento superficial.

Em 2015, o presidente chinês Xi Jinping lançou oficialmente o Programa Cidade-Esponja, incentivando municípios a priorizar infraestrutura verde em vez das chamadas soluções “cinza” (baseadas em cimento, concreto, aço e asfalto). O conceito, no entanto, é universal e já foi aplicado em mais de 250 localidades ao redor do mundo, consolidando-se como um dos mais emblemáticos exemplos de soluções baseadas na natureza.

“Você não pode lutar contra a água. Precisa deixá-la escoar”, repetia o arquiteto em entrevistas. A metáfora ganhava força quando ele descrevia os benefícios da chamada “água lenta”. Dizia ele: “ecologicamente, favorece a infiltração, reabastece os lençóis freáticos e filtra poluentes. Socialmente, devolve a água à cidade como elemento vital. Parques tornam-se áreas alagadas, ruas viram corredores verdes e planícies de inundação convertem-se em espaços comunitários. Crianças brincam, aves retornam e o cidadão urbano redescobre uma intimidade esquecida com a natureza. A água lenta também suaviza os extremos climáticos — refrescando o ar, mitigando secas e favorecendo a biodiversidade. Economicamente, reduz custos de infraestrutura cinza e cria valor adaptativo de longo prazo.”

Em visita ao Brasil, Kongjian Yu conheceu áreas verdes em centros urbanos, participou da Bienal de Arquitetura de São Paulo e se preparava para ir ao Pantanal, onde colaboraria para a gravação de um documentário sobre terras alagadas. Em um evento do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, em Brasília, afirmou ver o Brasil como “a última esperança para salvar o planeta”. Não é difícil imaginar quanto nosso país, que tanto sofre com enchentes, poderia ganhar com a parceria de uma mente visionária como a dele.

Sua partida precoce nos lembra a filosofia que defendia: a necessidade de humildade diante do meio ambiente. Pensar em cidades-esponja é falar de muito mais do que infraestrutura — é falar de convivência com a natureza, de reverência diante da água, como ensina a cultura chinesa, e de resiliência diante da vida. Kongjian Yu nos deixa um desafio claro: transformar concreto em permeabilidade, pressa em fluxo lento, rigidez em adaptação. Mais que um legado técnico, sua obra é um convite poético: reaprender a ouvir as águas.

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